Kiss me and say goodbye, that's love

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Certa sequência de acontecimentos podia ser definida com relativa precisão. Varga conversou com a senhora Matuska no pequeno café que esta mantém na estação de Kispest; parto do princípio de que foi apenas conversa de circunstância, sem cumplicidades, meio esquecida devido ao turbilhão de momentos banais que forma cada existência, esse confuso e fragmentado fio que devia ligar a ordem dos factos mas que, na realidade, transforma o filme da nossa vida numa catadupa de imagens em fuga. Varga podia até conhecer a proprietária do café, podiam conhecer-se de situações antigas. Quem sabe, uma fonte, uma reportagem? Mas acho mais provável que ele estivesse a pensar (é apenas uma hipótese, a minha especulação) no desgosto físico que lhe produziam todos os sinais de declínio à sua volta e que eram o testemunho do estilhaçar de uma época. A sujidade no chão, as pessoas nervosas, a linguagem caótica, os jornais imundos. Tudo isso representava o colapso dos sonhos, uma informe cacofonia de sons e uma mistura quase assustadora de queda e antecipação da morte. Era, apesar de tudo, uma cruel matéria de reflexão que devia ocupar os seus dias: o que sucedera à utopia e aos devaneios? Acredito que Varga tenha pisado aquele chão com mais amargura, que tenha descido as escadas com um peso na alma. Depois, ao tomar a linha número dois do metropolitano, penso que escolheu um lugar à janela e deve ter dormitado um pouco (o sol de inverno entrava na carruagem muito quente) embalado pelos solavancos da linha velha, até sair no centro da cidade, talvez na estação da praça Deák. Atrevo-me a dizer que saiu ali, porque ali voltaria mais tarde e porque é o coração de Budapeste e um centro de poder. É onde sai sempre mais gente, e Varga já só era mais um entre muitos.

 

Talvez seja um pouco especulativo afirmá-lo, mas depreendo que Varga passeou nas margens do Danúbio durante horas, onde se cruzou com alguns dos que frequentam aquela margem do rio, nomeadamente turistas em busca de uma boa vista do castelo. Talvez tenha sido fotografado na sua deambulação, quem sabe, por alguém da Suécia ou por um sul-americano, e nesse caso existirá algures uma derradeira imagem dele, mas sem que o detentor da imagem tenha a mais pequena noção de se tratar de um quase fantasma, à distância de escassas horas da morte.

   Talvez Varga parasse num café para ler jornais, que era uma rotina sua, sobretudo quando estava mais frio, como era o caso. Não consigo deixar de imaginar aquele homem andando pelas ruas vestido com um sobretudo pesado, mas insuficiente; a lutar contra o velho cachecol de padrões escoceses, tentando que este ficasse mais justo, a tapar as frinchas do casaco e a sua espessura deficiente. Nem sequer o imagino a tirar o casaco dentro da patelaria elegante (vamos especular mais um pouco, situando-o no Central), o que resulta numa imagem demasiado insólita e talvez demasiado fantasiada, de um reformado de chapéu e roupa de outono, sentado à mesa, a ler um jornal, em plena solidão, enquanto um sol de inverno tardio irrompe pelas enormes vidraças. A essa hora, quem trabalha no centro da cidade está no escritório e, portanto, imagino o Café Central vazio, excepto aquele cliente debruçado na leitura cuidadosa do jornal e o empregado distraído, de avental elegante, a esvoaçar à sua volta, sabendo que ele não vai pedir mais nada, além do café que bebe sem açúcar.
   No fundo, nunca saberei o que fez Joszef Varga durante esse tempo, pelo menos até se encontrar, já às quatro da tarde, com um homem que também passeava nas margens do Danúbio, ou simulava fazê-lo. Lembrei-me de um calendário improvável, mas possível, para explicar o hiato: Varga sentou-se a ler os jornais no Café Central e depois comeu uma bucha, muito depressa, num fast-food perto da cinemateca, sem almoçar propriamente. Comeu um cachorro quente, tenho quase a certeza. Sei que gostava desse tipo de comida, com muita mostarda. Depois, entrou na cinemateca, na sessão da uma, que está sempre vazia ou que só os velhos reformados frequentam. As pessoas recebem um pequeno bilhete parecido com os que se usam nos autocarros. Mas se isto se passou como penso, então ele deitou fora o bilhete.
   Nesse dia, exibiram um filme raro. Consultei o programa. Passaram, nessa sessão, Nana, um clássico americano dos anos 30, a versão do início do sonoro do romance de Emile Zola, com legendas. Tem a curiosa particularidade de contar com uma actriz que devia ter sido a rival de Greta Garbo, Anna Sten, obviamente uma mulher inteligente e uma actriz de raro talento. A sua história é curiosa. Hoje, Garbo parece-nos um fenómeno estranho: por que raio foi tão importante, fazendo sonhar milhões de vítimas da grande depressão? Sten é bem mais feminina, mais autêntica e, no entanto, após três fracassos, foi despedida como um embaraço. Para a história do cinema fica talvez uma única cena, a cantar, com forte sotaque, kiss me and say goodbye, that’s love, exactamente neste filme, Nana
   Varga falava einglês e podia apreciar o sotaque profundo da actriz ucraniana. Também teria lido o romance original, pelo que a suavização do enredo só o poderia ter divertido. Não posso dizer com certeza que ele nunca antes tivesse visto o filme, e talvez Anna Sten fosse um seu segredo de juventude. Se passou pela cinemateca e viu o programa daquele dia, não teria hesitado a entrar na sessão da uma. E isso permitiria que chegasse a tempo ao resto do seu encontro com o destino e na melhor das disposições, ou na pior, quem pode dizer? O que se apurou (um jornal chegou a entrevistar a testemunha) é que Joszef Varga esteve às 16 e 30 junto à ponte Margarida, mas no lado de Buda, e meteu conversa com esse desconhecido, um tal Csórdas, enquanto ambos observavam a água do rio, cuja corrente engrossara pelo mau tempo a montante da cidade.
   O que Csórdas contou mais tarde ao jornalista não esclarecia o motivo que levou Varga a meter conversa, algo que ele não fazia habitualmente com desconhecidos, pelo menos se o pudesse evitar. Para mim, este é um ponto misterioso, que a peça do jornal não esclarece. Segundo o repórter, Csórdas é um homem sem ocupação, um inválido, com o braço direito deformado devido a um acidente de trabalho. Quando li a entrevista, fiquei com a impressão de que Varga e Csórdas se conheciam do passado e que este escondeu o facto ao relatar o encontro. Foi, talvez, uma conversa cordial e cúmplice entre velhos camaradas, mas também pode haver ali algo mais sinistro.
   Enfim, ficaram os dois a conversar à beira rio e Csórdas disse que falaram de carpas e de outros peixes de água doce e que Varga afirmou a certa altura que era um homem feliz e apontou para a luminosidade dourada que banhava os edifícios do outro lado da cidade, com os seus telhados cobertos de neve, e aquilo era uma visão gloriosa, na expressão usada pela própria testemunha. Varga estava encostado ao paredão, a observar o rio e a assobiar uma música, mas apesar de ser questionado pelo repórter, Csórdas não sabia dizer qual era a melodia. Sinceramente, achei aquilo tudo inventado, embora acredite que os dois homens estivessem naquele local àquela hora, o que não se recomendava com a temperatura negativa, e também acredito que Varga assobiasse a canção de Nana, kiss me and say goodbye, that’s love, mas acho que ele jamais diria que era um homem feliz; também nunca diria o inverso; simplesmente, não era pessoa para falar de estados de alma, para tecer um comentário sobre a felicidade, ainda mais sobre a sua.
   Na mesma entrevista, peça curta no canto da página, o jornalista perguntava à testemunha a que horas se tinham separado depois daquela improvável conversa e Csórdas explicava que Varga se despedira dele por volta das cinco horas e que, ao vê-lo afastar-se, lhe parecera que um homem o seguia. “Que tipo de homem?”, perguntara o repórter; “Um tipo gordo e escuro, de bigode, que mancava”; e pelas palavras usadas, a meias-tintas, dava a entender que Varga fora seguido por um cigano coxo, o primeiro suspeito de ser o seu assassino, no caso de se tratar de homicídio, como eu penso que foi. Sobre o inválido, também sabíamos que tinha um perfeito álibi: seguiu imediatamente para uma tasca de vinho, a embebedar-se ou a fingir que o fazia, e entrou no estabelecimento às 5 e 30. A bebedeira fê-lo cantar velhas canções nostálgicas (ez a szerelem); as pessoas que estavam na tasca riram-se daquela triste figura, por isso tinham uma memória sólida, e Csórdas só abandonou o estabelecimento por volta das sete da noite.   

publicado por Luís Naves às 16:16 | link do post