O Patriota (capítulo I, primeira parte)


Ao ver pela primeira vez Ruby Rose, o senador Severn ficou muito impressionado. Quando ela começou a cantar, estava sentada, iluminada por uma das luzes de palco, mas percebia-se que era uma mulher magra e alta, de lábios grossos, cabelos ruivos e encantadores olhos orientais. Uma feiticeira de vestido negro, que inundava de tentações o pequeno palco do cabaret Wild Side.
   Severn já ouvira de outros senadores a informação de que Atlantic City tinha uma nova vedeta, mas não acreditara nas hipérboles dos seus companheiros de ofício. Nas altas esferas do regime instalara-se um clima de boataria oportunista. Os políticos mentiam uns aos outros com impunidade e acreditavam nos rumores que eles próprios inventavam.
   Tinha de manter a compostura, pois entrara na companhia de um mestre de alta patente. Sabia que eles não apreciavam música, que bebiam champanhe apenas por cortesia, que tinham até desprezo por simples senadores das repúblicas, mas era assim que se jogava o jogo: enquanto a elite humana fazia salamaleques, os mestres fingiam que respeitavam a elite humana.


O visitante chamava-se Gavain e era membro do comité militar, em Washington. Vestia um uniforme negro, sem adornos, à excepção de quatro barras discretas na lapela curta. Se na aparência era mais jovem do que Severn, que ia pelos seus quarenta anos, isso significava que teria pelo menos setenta. Assim se dizia: a idade dos mestres era igual à dos terrestres, a multiplicar por dois ou talvez por três.
   Ruby Rose cantava uma velha canção, I die a little, acompanhada por uma orquestra de sopros, um piano e um contrabaixo. Tinha uma voz sensual e dramática. Era difícil desviar o olhar daquela magia, mas o senador Severn aproveitou para observar Gavain com atenção e prudência, tentando ver na sua face alguma réstia de emoção. Era  gesto ousado para um humano, fixar o olhar num mestre, mas este parecia fascinado, atento ao que se passava no palco, distraído (se isso era possível). O olhar do senador durou segundos, mas Severn concluiu que vira apenas a pele pálida, quase humana, sem flutuação de pensamentos, sem revelação de emoções profundas, o vazio, mais despojado ainda do que a velha estátua de bronze que se erguia, sempre imóvel, no meio da praça central de Atlantic City.

  

A canção terminou, como tudo o que é belo termina, e o público aplaudiu. Gavain fitou Severn, ergueu o copo de champanhe e fez a sua crítica:
   “Interessante”.
   O senador não compreendeu se ele se interessara pela cantora ou pela canção. Um sentimento? Era impossível perceber, mas aproveitou a deixa para ir ao ponto que lhe era caro:
   “Interessante seria que o conselho dos mestres desse mais latitude política à nossa república”.
   Fora um desabafo perigoso, mas de novo não houve expressão emocional no rosto do mestre, nem sequer um sorriso cínico ou uma sobrancelha erguida, um piscar de olhos. Nenhum nervosismo, nenhum receio.
   “Por que razão faríamos isso?”
   Severn ficou surpreendido e deve ter mostrado a surpresa na sua expressão facial. Gavain parecia querer ouvir a opinião do senador e Severn aproveitou para explanar os argumentos que desenvolvera em reflexões íntimas. Explicou que a situação política recomendava o apoio aos regimes semi-independentes que restavam. Os mestres não tinham recursos para manter a segurança nas zonas ocupadas e as zonas livres deviam ser alargadas. Era a única forma de impedir revoltas.
    “Claro que o conselho domina a tecnologia das viagens interplanetárias”, argumentou, “mas em caso de rebelião, será difícil colocar na Terra, a tempo e horas, as tropas necessárias. Pelo contrário, regimes semi-independentes e desmilitarizados, como o nosso, dão garantias adicionais de estabilidade”.
    Gavain interrompeu-o com um gesto da mão. Pela primeira vez, sorriu. Falou em tom de voz suave, quase ameaçador, mas peremptório:
   “Os regimes que não estão sob ocupação podem revoltar-se ou podem ser derrubados pela população. São dois problemas em um. Nos territórios ocupados, existe uma única ameaça constante, a revolução armada das massas, que como sabe não pensam e têm de ser conduzidas como crianças. Já em territórios não ocupados, há duas ameaças, as massas infantis e a infantilidade dos regimes. Como vê, o primeiro cenário é superior ao segundo”.
   “É essa a sua opinião?”
   “A minha e a do conselho”.
   “Como é que querem conquistar os nossos corações se não confiam em nós?”
   Severn dissera aquilo de forma impensada. Estava a esticar-se, mas não mostrou receio. Gavain respondeu, sem emoção:
   “Segundo alguns, e o senador está incluído nesse grupo, nós já vos conquistámos”.
   Severn calou-se. Era uma opinião perigosa, que partilhara com poucos colegas do senado. E agora ouvia aquela sua citação, feita em tom ácido por um dos conquistadores. Pensando depressa, optou por não negar o óbvio:
   "Esse é, de facto, o meu ponto de vista, nunca o escondi”.
   O outro sorriu, como se vencesse o debate:
   “E a realidade não é muito mais do que um ponto de vista”, disse Gavain, com um movimento vago da mão direita. “Nós preferimos evitar a palavra conquistadores. Estamos apenas a tentar impedir a humanidade de cometer erros fatais. Queremos sinceramente ajudar. Quando chegámos à Terra, vocês estavam à beira da destruição e os vossos países eram governados de forma caótica. Agora, existe ordem, previsibilidade e harmonia. Que mais querem?”.

 

(...) continua

 

Primeira parte do primeiro capítulo da novela O Patriota, de Raoul Sevan

publicado por Luís Naves às 19:36 | link do post