O Patriota (capítulo 2, primeira parte)

(Continuação da novela de Raoul Sevan)

 

II
Durante a noite bebera em excesso e tivera os pesadelos habitados por terrores, mas não recordava mais do que sombras angustiantes. A única impressão clara era aquela imagem, filas e filas de recém-nascidos, certamente num hospital, com a luz branca uniforme a iluminar cada recanto. Pairava o silêncio e as imóveis fileiras de berços, como se fossem uma guarda de honra, desenhavam o caminho estreito que um desconhecido percorria. Primeiro era uma figura indistinta, então reconheceu-se a si próprio, o senador Severn, vestido de negro, a avançar ao longo da inesgotável sala. E, sem olhar, com o conhecimento dos sonhos, soube que os berços estavam cheios de pequenos monstros e depois vazios. Teve a sensação de que todas as crianças (ou seriam preciosos horrores) tinham sido levadas e aquilo provocava-lhe uma angústia insuportável. Acordou, sufocado.
  

Com dificuldade em respirar, tentou perceber o que existia à sua volta. A cama estava vazia. Ruby desaparecera. Pela janela, através dos reposteiros, rebentava a luz intensa da manhã alta.
   Fez um esforço de memória. Gavain, Ruby, a noite a eternizar-se, uma bebida atrás da outra e o mundo a desabar demasiado depressa, a tornar-se desconexo. Recordou a música: dançara com Ruby, a orquestra do cabaret a tocar só para eles, e lembrou-se do calor do corpo dela colado ao seu, sentiu de novo as mãos húmidas da rapariga, ou pelo menos essa era a memória que lhe restava. Teria Ruby medo dele?
   Ainda mal acordado, questionou-se sobre o seu futuro. Sabia que o poder não passava de uma ilusão consentida. Severn considerava-se um homem feio e até, para certas mulheres, bastante repugnante, por causa das cicatrizes que lhe desfiguravam o lado direito da cara. Tinha ar de pugilista e carácter sem escrúpulos. Qual era o interesse dela?
   Não conseguia despertar. Sentia enorme cansaço, como se a ressaca o obrigasse a relaxar mais uma vez e a tentar o alívio do sono. A certo ponto, travou todos os esforços de resistir ao que pedia o corpo e adormeceu de novo:
  

Pilotava uma nave e o centro de comando era tão acanhado como o cockpit de um avião. Teve este pensamento com clareza, como se ele estivesse a ser escrito por outra pessoa. A nave deslizava numa órbita da Lua, aproximando-se do satélite. Era um movimento gracioso e rápido. Soube que estava no lado oculto, pois podia ver a Terra ao fundo, muito azul. E foi nesta altura, enquanto mexia em botões incompreensíveis (parecia estranho, mas era ele quem conduzia a nave), que viu a grande base lunar: gigantesca, em forma de estrela, com longos raios de estruturas iluminadas, uns mais longos, outros curtos. No interior do sonho, foi ficando com a percepção de que não estava sozinho. Sentava-se no lugar de co-piloto e a seu lado, ao comando da nave, viu Gavain, que apenas observava as suas acções. Era um Gavain diferente, apesar de tudo, com alterações subtis que não podia enunciar com exactidão. Dava instruções numa língua desconhecida e agreste. E Severn obedeceu, embora não compreendesse uma única palavra. Gavain apontava para a base: ali estavam os reactores de energia, as instalações que produziam água, hidrogénio e oxigénio, os grandes tanques, as fábricas, as bocas das minas, as estufas, as zonas habitacionais, as plataformas de aterragem. Tinham construído a base do lado oculto da lua, para que não se visse da Terra, e as naves em aproximação usavam mecanismos de invisibilidade, para não poderem ser detectadas pelos telescópios terrestres. A actividade frenética era invisível e a base constituía, na realidade, uma gigantesca cidade com mais de um milhão de habitantes. “E se nós somos Homo sapiens, qual é o nome que vos define?”, perguntou Severn, mas naquela língua que desconhecia e que de repente, com a loucura do sonho, já fazia sentido. Gavain riu-se e o esgar na cara não era humano, mas demoníaco. ‘Somos os anjos negros, Angelus niger, e sabemos voar, temos as estrelas na mão’, disse o mestre, e os seus olhos rodopiavam. Foi neste momento que Severn acordou, aflito.
  

Quando se levantou, percebeu que estava alguém na cozinha do apartamento.
   Aproximou-se da porta da cozinha sem fazer qualquer ruído e viu Ruby, em roupão de seda, a fazer o pequeno-almoço. A rapariga estava compenetrada, mas sentiu a sua proximidade. Sorriu-lhe, encantadora, e explicou que não quisera acordá-lo.
   “Precisas de dormir. Tens um ar tão cansado”, disse ela.
   E ele não lhe respondeu. Sentou-se à pequena mesa, olhou para o exterior, para as árvores em frente, para o ar tranquilo daquela manhã e o coração saltava-lhe dentro do peito, como se fosse uma locomotiva. Que lhe queria Ruby, se lhe queria alguma coisa? E qual o sentido dos sonhos brutais que tivera?

 

(Continua) 

publicado por Luís Naves às 11:24 | link do post