O Patriota (segundo capítulo, segunda parte)

Só muitas horas depois teve tempo para pensar. Incapaz de suportar a tensão no escritório, meteu-se no carro oficial e deu ordens para irem até à praia de Glen Cove.
Dali via-se o mar, que um vento maldoso perturbava. A praia estendia-se, vazia, com o areal limpo, as orlas presas a uma vegetação débil. Os guardas tinham ficado junto aos carros. Severn estava sozinho, numa plataforma em madeira que dominava todo aquele cenário.
Percebia agora o que lera num livro antigo. O título era ‘A Queda do Império Romano’. Encontrara o volume nas ruínas da velha biblioteca da sua cidade natal e desde esse momento decorrera uma eternidade. A princípio, o livro despertara o seu interesse, por ser pesado e nobre. Esta era a única ideia que lhe ocorria para descrever a robusta lombada, o couro fino da capa, as letras num tipo compacto e denso. ‘A Queda’ estava numa pilha de livros abandonados que resultava do incêndio provocado pelo único ataque sofrido pela sua cidade. Sem outra razão aparente, escolheu aquele e levou-o para casa. Nesse tempo, viviam na penumbra. As comunidades fechavam-se, formando tribos selvagens. Isto foi quando a sociedade entrou em ruptura, antes da chegada dos senhores do espaço. E ele, que não podia aprender na escola, agarrou-se a um livro, aquele, tirado de uma montanha de obras que o mau tempo depressa devorou no meio da confusão de refugiados, dos protestos e dos incêndios, da insensata voragem do conflito civil entre gangues e milícias. A certo ponto, o seu livro era um dos poucos que restavam em todo o bairro. E lia algumas páginas em cada dia. Era uma espécie de ritual, que passou a ser o seu escape daquela situação cruel a que ninguém escapou, nem ricos nem pobres, nem inteligentes nem estúpidos, nem trabalhadores nem preguiçosos. Todos enfiados no mesmo barco a afundar.
E o mais curioso da ‘Queda’ era a circunstância de falar de Roma, mas na realidade mencionar sem alterações aquilo que o rodeava. Como caíam as civilizações? Era mais um apodrecimento interno do que um empurrão exterior. A ‘Queda’ era provocada pela desistência da vontade e pelo sufocar progressivo das forças sobreviventes. O colapso lembrava o cansaço de um homem a nadar contra a corrente, no meio do nevoeiro; por um lado a sentir-se arrastado, por outro sem referência que o pudesse alarmar. A chegada dos mestres tinha impedido o afogamento. E, embora muitos discordassem, era assim que pensava.
Lembrou-se de ter lido que provavelmente gerações de romanos viveram as suas vidas sabendo que o mundo estava em declínio, mas a maior parte nunca pensou nesses temas complexos. As pessoas presas em tempos difíceis pensam apenas em sobreviver e prosseguir as suas vidas. Perante as forças da História, o que pode fazer um homem sozinho?
Severn respirou com mais força a atmosfera límpida. Ao fundo, junto ao horizonte, as nuvens escuras alertavam para a aproximação de uma tempestade. E o mar agitava-se, caótico, largando sal e espuma. O turbilhão do vento e da água desfazia lentamente a terra firme. E assim era com o seu mundo, onde forças invisíveis demoliam cada pedaço sólido da realidade.

publicado por Luís Naves às 14:55 | link do post