A literatura do presente

No romance tradicional, os autores tentam fazer a literatura do futuro, mas existe uma literatura do presente que me parece ser um novo género ainda por definir. Concisa, breve, não tem os elementos da crónica jornalística, mistura ficção com realidade, mas não é novela nem conto, antes junta diferentes formatos numa amálgama feita em cozinha amadora e demasiado improvisada. Está para a literatura como a música está para o jazz. É totalmente oficinal e desprovida de intermediários, de editores, de revisão, de crítica. Só tem o autor e os seus leitores, que passam por ali distraídos.
A literatura do presente fala da realidade, mas discorre pela reminiscência e o passado, pelo sonho e as ambiguidades, pela imprecisão casual e a observação despreocupada. Os narradores quase sempre escrevem de forma inacabada sobre as suas vidas, mas funcionam muitas vezes como cronistas instantâneos de pequenas cenas de agora e de outras imaginadas. Esta literatura passa à frente dos nossos olhos, escrita em blogues que se estão nas tintas para as audiências e usam a linguagem de hoje. Não é bem diário íntimo, porque se encontra exposto e, por isso, não tem autobiografia pura, embora possa incluir as incertezas de memórias escritas trinta anos depois dos acontecimentos.
A literatura do presente está embrulhada em mentiras subtis que não lhe retiram um milímetro da autenticidade. Nela, há fantasia e olhares originais, colagens e fotografias pirateadas, histórias curtas do quotidiano, erros de facto e exageros grosseiros, ideias fixas e passos em falso, tudo muito efémero, exposto em fragmentos e arrumado em pequenos livros futuros, alguns possíveis, quase todos impossíveis, cada um com a sua etiqueta.

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publicado por Luís Naves às 12:58 | link do post