Danúbio

Não era alguém para sentir nostalgia, mas ficou parado a olhar para a água e a pensar como a corrente impetuosa se parecia tanto com a vida das pessoas. O rio, amálgama das chuvas que a grande planície aprisionava, escondia o borbulhar de muitas almas inquietas. Distraiu-se a olhar para a cidade. Inclinou-se no muro, alheio ao trânsito que passava na estrada atrás, e a sua imaginação vogou pela linha de casas da outra margem. Estava frio. Ajustou melhor a gola do sobretudo, compôs o cachecol e o chapéu fora de moda que trazia à cabeça, e caminhou até à ponte, passou o cruzamento e entrou na praça. A torre da igreja entristecia na sombra da colina, as árvores já tinham perdido as folhas. Nuvens densas pairavam. Eram cinco e meia, hora do crepúsculo.
Depois avançou até um velho café que se chamava Gagarin, viu a sua imagem reflectida na vidraça. Olhou para um lado e outro, mas sem denunciar a tensão; uma visão de águia sobre a praça inteira. Sonolento perigo.
Observou daquele lado: um casal de namorados fingia trocar beijos no banco do jardim (com aquele frio!) Uma carrinha de entregas estacionada, o condutor lá dentro; e o falso jardineiro, a aparar canteiros, mas sem se incomodar muito e, acima de tudo, sem olhar na sua direcção. Havia um homem à porta da igreja; parecia tão autêntico, até tinha sapatos velhos e não se tinham esquecido de lhe sujar as unhas. O homem olhava fixamente na sua direcção, de baixo para cima, e isso atraiu-o: viu a tristeza, meio imbecil, da cara inchada, o saco de plástico onde guardava os tesouros. Sentiu desprezo e tentou recuar, mas o outro não o largava, por isso aproximou-se mais. Não era para lhe falar, mas para se certificar de que não era um deles, um fingidor.
   − Você…
O outro disse aquilo como que acusando, o beiço inferior tremia-lhe.
   − Conhecemo-nos?
   − Roka! Você é Zoltán Roka!
O passado, mais um fantasma, sempre as antigas contas, o fechar do círculo, o regresso dos espíritos, medos adiados, o retorno.
Tentou negar, mas o homem esticou o dedo, não negue, conheço-o bem, e vacilou um pouco; este não era um deles, mas um castigador; e o que lhe fizera tinha de ser feito, queria explicar-lhe isso, protegi-te, mesmo não sabendo quem tu és, pois com outro terias sofrido mais, talvez perdido a vida…


 

  − Olhe para mim, veja o que me fez…
E mostrava-lhe o corpo, mas por baixo da roupa velha adivinhavam-se as feridas; foi para teu bem, para tua protecção, tenta compreender…
   − Outros tempos. É preciso compreender…
   − Conheço a desculpa, que não teve opção.
   − Mas é mesmo assim, não tive opção. Não podia vacilar ou seria pior para todos, o compromisso, era preciso tentar enganar o sistema, melhorar o regime por dentro. E por dentro é muito mais difícil.
   − O que vocês me fizeram − e mostrou as mãos com sinais de fracturas antigas. − Deixei de poder escrever e tudo o que tinha na cabeça se perdeu…
Roka tentava lembrar-se, mas só ouvia os gritos, e as caras perdiam-se no nevoeiro, procurara sempre esquecê-las.
   − Tenha calma.
   − Vi-o ali, à beira do rio, e reconheci-o. Não é possível esquecer. Desejei que se atirasse à água, para o poder salvar.
   − Para me poder salvar?
   − Não é o que precisa, maldito?
O desconhecido disse aquilo e ficou um momento em silêncio e depois virou-lhe as costas. Então, o homem entrou na igreja, a abanar a cabeça.
Não o reconhecera, com aquela barba horrível e as cicatrizes de velho e a roupa desmazelada. Mas também não se lembrava das caras. Os gritos dos que sofriam, esses, eram quase suportáveis. O choro em sussurro na escuridão das celas também não o comovia. Pior era os que calavam o sofrimento, os que o olhavam com ódio, como agora fizera este.
E foi para casa, como um sonâmbulo, a tentar lembrar-se do que fizera aquele homem na altura.
Tomou o eléctrico seis e subiram três rapazes. Percebeu que eram os seus perseguidores. Talvez enviados pelo velho, o agente provocador. No eléctrico, viajavam mais quatro a vigiá-lo: a mulher grávida era uma falsa grávida. Olhou para ele de forma significativa e, depois, desviou o olhar, o que a denunciou. E havia ainda um falso operário de blusão de cabedal. Tão falso como judas.
Saiu na paragem da rua Margit e caminhou o resto. Ao passar pela pastelaria, lá estava a empregada nova, uma rapariga muito loira que fazia todos os relatórios sobre ele. Percebeu o olhar dela: escreve tudo, cheguei a casa às 18 horas, como faço todos os dias, vá lá, informa-os, Roka voltou hoje, o torturador regressou a sua casa, com a sua pensão de miséria, descontente com o novo regime, ainda a ouvir os gritos na sua cabeça, as caras cada vez mais esquecidas, a mergulharem devagar no nevoeiro.
Entrou no pátio do prédio. Sentiu um arrepio de frio, subiu as escadas, percebeu o ligeiro movimento nas cortinas do apartamento em baixo. A vizinha do primeiro, sim, também trabalha para eles e conta tudo o que faço; e o do terceiro C também espia para eles. E os miúdos que jogam à bola no pátio.
Todos me vigiam, todos.
publicado por Luís Naves às 15:26 | link do post