Sobre as obras incompletas

Na edição de sexta-feira do jornal Público (infelizmente sem link), Pedro Lomba escreveu uma crónica sobre os artistas que fazem extensos planos sobre o seu trabalho. O texto, escrito a propósito da biografia de Luíz Pacheco, da autoria de João Pedro George, chega a conclusões estranhas. Segundo Pedro Lombra, Pacheco "sentia que precisava de escrever um romance para ser reconhecido no meio literário. Por isso acumulou projectos e ideias, deu-lhes títulos, trabalhou nas primeiras páginas". Mais à frente, o cronista explica que Pacheco foi sempre um "escritor de pequenas prosas".
Na sequência da crónica, Pedro Lomba afirma que "existem escritores com obra e escritores sem obra". Há também um "terceiro género, os escritores com planos". Depois, é citada a alegada "obra ensaística" de Fernando Pessoa. "O poeta sonha. A obra é que nem sempre nasce", acrescenta o cronista.

 

Julgo que há vários problemas nestas ideias.
Um escritor de pequenas prosas pode ser tão forte como o maior romancista. Os contos de Tchekov são a melhor prova. A arte não está no formato nem na dimensão.
Fernando Pessoa tentou ser ensaísta, mas foi sobretudo poeta. Surge no texto uma confusão entre as abordagens que os autores experimentam e aquelas onde são influentes.
Os planos irrealizáveis e os sonhos são importantes para o método criativo, deles pode resultar uma obra, mas cada autor vale por aquilo que extraiu dessas especulações mentais. O resto é diletantismo.
Além disso, não há "escritores sem obra" e o mesmo se pode dizer de pintores e músicos. Não há escritores sem sonhos ou planos irrealizáveis, mas a arte tem sobretudo a ver com a concretização das ideias, mesmo se a obra é rejeitada pela sociedade e lançada ao esquecimento.

A crónica de Pedro Lomba fez-me lembrar dois exemplos impressionantes que revelam a complexidade do tema.

 

O primeiro caso é de um fotógrafo checo chamado Miroslav Tichy, tornado famoso no final da vida e cuja obra tem exemplos neste site.
Tichy faleceu em Abril de 2011, aos 85 anos. Vivia em condições miseráveis, considerado vadio durante o comunismo e vagamente dissidente. Num documentário que vi sobre ele, percebia-se um discurso incoerente. O que fazia era arte? Tichy usava câmaras de má qualidade para fotografar mulheres sem que elas notassem, acumulando uma vasta colecção de imagens estranhas. Eram pedaços imprecisos da realidade, em condições técnicas imperfeitas, aquilo a que os especialistas chamam de "imperfeição poética". Tichy mostra, no fundo, como é difícil definir a arte. Quando vi o documentário achei que estava perante um exagero comercial, mas a obra de Tichy interroga-nos sobre as fronteiras do que podemos considerar artístico.

 
O outro exemplo está num livro: O Segredo de Joe Gould, de George Mitchell.
O texto baseia-se em duas reportagens publicadas na revista New Yorker, com anos de intervalo. Na primeira, o autor encontrava uma personagem chamada Joe Gould, que apresentava como um artista brilhante agora a viver como sem-abrigo e que afirmava estar a escrever a história oral do presente, obra que parecia extraordinária e da qual havia uns manuscritos que seriam representativos de milhares de cadernos espalhados pelas casas de amigos. Joe Gould era uma figura "maior do que a vida", como dizem os anglo-saxónicos, parecia um génio, um artista a escrever uma obra gigantesca.
A segunda reportagem, escrita quase vinte anos depois, é a desmistificação da primeira. Joe Gould morrera e Mitchell foi em busca da obra imortal, que estaria espalhada por dezenas de apartamentos de amigos. Mas o autor descobriu que esta não existia. A obra era constituída por centenas de manuscritos copiados à mão e que se repetiam uns aos outros. Havia apenas meia dúzia de cadernos diferentes e incontáveis cópias.
O trabalho imortal só existia na cabeça de uma personagem que fascinara os intelectuais nova-iorquinos, mas que provavelmente era esquizofrénico. Tudo não passava de ilusão e moda, da crença colectiva (e que ninguém pusera em dúvida) de que Joe Gould era um génio incompreendido. O sonho, afinal, não passava de loucura.

Tichy e Gould têm semelhanças, mas julgo que os seus casos mostram que uma obra é essencialmente aquilo que a sociedade decide que constitui uma obra, sempre por motivos mais misteriosos do que seria lógico admitir.

 

Imagem: Noite na Rua Karl Johan, Edvard Munch, 1892

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publicado por Luís Naves às 19:36 | link do post