O império do passado

Sempre adorei banda desenhada e cresci a ler O Cavaleiro Andante (que já não era do meu tempo) e o Tintim, que saía em fascículos semanais e que eu e os meus irmãos corríamos a comprar, antes que esgotasse. A colecção ia crescendo, depois era encadernada. Devo ter lido dezenas de vezes algumas das histórias e, com o passar dos anos, o meu gosto tornou-se mais preciso. Tintim, claro, há ali elementos novos em cada leitura; Blake e Mortimer, que ainda está por ultrapassar. Mas havia muitos outros heróis.
O meu primeiro álbum do Tintim (álbum mesmo) foi oferecido pelos meus pais quando eu estava internado num hospital. Tinha oito anos. É a aventura sul-americana, julgo que agora se chama A Orelha Quebrada, mas conheço por Ídolo Roubado. É o meu álbum favorito. Foi poucas vezes relido, por ter esse lado especial; receio a vaga desilusão que me leve a pensar que não é o melhor álbum (talvez não seja) e eu quero que permaneça na minha memória como o melhor de sempre, por me ter feito companhia naqueles dias de solidão.
As aventuras de Edgar Pierre Jacobs davam para escrever um tratado. Ficção científica da melhor, a meu ver representam o cume da banda desenhada.
Não me refiro apenas ao desenho rigoroso e estudado ao milímetro, a criação de ambientes, as personagens interessantes (o vilão Olrik é fantástico). A força está claramente nas espantosas histórias, pois as sequências sem Jacobs são pobres e banais, completamente irrelevantes. É incrível que Hollywood ande tão distraída. Como é que ainda não existe um filme baseado em O Enigma da Grande Pirâmide ou em A Marca Amarela.

  

Fico perplexo quando vejo a nova geração a ler manga japonesa ou heróis da marvel, alguns desconhecendo por completo a banda desenhada do meu tempo. Os gostos evoluem, claro, mas acho pouco provável que Jacobs tenha envelhecido, ou Hergé.
Na banda desenhada americana e japonesa as histórias são bem mais infantis. O cinema americano também está infantilizado. A nova geração resiste a aprofundar o pensamento. Os miúdos passam o tempo em jogos de computador, nasceram com telemóveis colados ao ouvido, a cabeça em forma de cubo televisivo. No fundo, o pensamento longo está excluído das suas vidas e parecem incapazes de se concentrar por muito tempo, seja na leitura ou na resolução de um problema. Isto vê-se no quotidiano e não apenas entre os mais novos. As pessoas já não aguentam a leitura de textos longos ou complexos, nem sequer conseguem ouvir por mais de dez segundos aquilo que outra pessoa lhes diz. A era contemporânea caracteriza-se pelo défice de atenção.

 

Nestes tempos apressados, é inevitável que desapareçam muitas referências e surjam outras. A fragmentação da cultura torna mais devastador esse efeito de mudança. Tudo parece consumir-se numa voragem impiedosa.
Em conversa recente com um amigo (Fernando Sobral) enciclopédia viva da cultura da banda desenhada, mencionei umas histórias que andavam pela minha cabeça, completamente esquecidas, transformadas em enigma: lera-as numa revista antiga e apenas recordava a mistura de império romano com naves espaciais. Sobral identificou de imediato a origem. Este space opera do final dos anos 60 chama-se Trigan Empire e é hoje um clássico disponível nos alfarrabistas de Londres. Há sites de internet sobre o tema, resumos das histórias, imagens das páginas.
Cultura de massas agora apenas nicho de mercado, produto para conhecedores, um império perdido.
É uma curiosidade do passado, mas que fantástico filme daria.

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publicado por Luís Naves às 20:40 | link do post