O invejoso

Sentia inveja e era isso que o consumia. Produzia-lhe ardor no estômago, da acumulação de ódios  e fluidos. Mas disciplinava-se, embora a custo, pois a inveja não deve ser evidente: o feio fazer pouco do belo é insensato. Assim, usava sobretudo o método da frase implacável, mas lateral, e que se torna eficaz quanto mais injusta. Era raro, mas as pessoas espantavam-se com a sua crueldade e foi ficando com fama de frustrado, sempre adepto de medíocres comparações, teorizando com habilidade que fulano não tinha talento.
Há leis gerais no universo. A vida foi-se apagando. E, depois, morreu. Felizmente, fora cuidadoso nas disposições do testamento. A sua campa era notável no aspecto, esculturas de calcário, tampa em basalto, bem pesada e polida, com o seu nome em letras góticas, douradas. Era bem mais bonita e duradoura do que as restantes à volta, destacava-se com facilidade e via-se de todo o cemitério. As pessoas pensavam que ali estava um morto cuja vida certamente valera a pena.

publicado por Luís Naves às 21:26 | link do post