Limites da oficina

Um dos aspectos mais difíceis da escrita é definir a linguagem das personagens. Exige-se sentido atento à forma como falam as pessoas, mas também verdade poética. Daí que seja difícil fazer diálogos. Por um lado, estes têm de parecer parte da vida, por outro lado, não podem ser meras transcrições, pois as pessoas reais geralmente só dizem banalidades ou usam interjeições e sons acompanhados de gestos. E as personagens não são pessoas reais, existem na imaginação do autor e, quando estão bem construídas, na do leitor também. Artifício q. b. é como a culinária, o sal vai a olhómetro, mas os verdadeiros cozinheiros deitam tempero sem sequer olharem para o tacho.
Quando existe narrador na primeira pessoa, as dificuldades aumentam, pois os leitores pensam que o texto é necessariamente autobiográfico. No entanto, a primeira pessoa é tanto mais eficaz quanto mais se afasta do próprio autor. Pensem em Lolita, por exemplo.

 

Para uso da literatura, a blogosfera tem limitações. Uma experiência como esta presta-se a equívocos. Os leitores não estão preparados para encontrar aqui mundos imaginários, situações inventadas, especulações de figuras inexistentes. Tudo parece ser crónica e comentário, portanto, autêntico. A linguagem passa a ser a do autor e o uso do calão ou das gírias tem de ser feito com cautela, sob pena de se tornar também parte do autor. Isto, naturalmente, em experiências assinadas, como é o caso deste blogue. Mas mesmo quando a etiqueta remete com clareza para o universo da ficção, alguns leitores têm dificuldade em aceitar que o autor não interessa ao caso. E ficam fascinados com essa figura que assina o blogue e que não conseguem imaginar claramente.
Em livro tudo se aceita, não há verdadeiros tabus. As metáforas já nem têm cabimento, pois vivemos na era do explícito. Num jornal, seria impossível usar certas palavras. Na blogosfera, devia ser possível, mas não é: ainda me lembro do escândalo de O Meu Pipi, que a publicação em livro tornou respeitável, literatura séria.

 

Nos romances que escrevi, sempre tive dificuldade nestas matérias (diálogos, linguagem da primeira pessoa, uso de gíria). O grande defeito do meu romance Os Reis da Peluda é, sem dúvida, a falta de linguagem de caserna. Esta oficina, Fragmentário, serve para treinar o conto, para escrever crónicas e pequenos textos sem classificação; também serve para textos de pura opinião. Mas é inevitável que tente corrigir deficiências das quais tenho plena consciência. É para isso que existe este lugar, na certeza de que me falta coragem para tentar a autêntica exposição. Paninhos quentes? Como sabem, é a morte do artista, mas aqui não existe exactamente arte. Há artifício e artefacto. Aproximações, esboços, tentativas, actividade oficinal, como se fosse a escola de pintura ou uma sessão de jazz num clube cheio de fumo. Cena incompleta, erros de palmatória, trabalho em progresso.

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publicado por Luís Naves às 19:09 | link do post