Carrinho de bebé

A mulher entrou a empurrar um grande carrinho de bebé, a atrapalhar-se, mas ninguém tentou segurar a porta. Devem ter reparado naquilo que só vi algum tempo depois, que ela tinha o cabelo espetado e sujo, cor incerta e desvanecida, roupa desmazelada, olhares vorazes, próprios do animal anestesiado. Em resumo, era uma louca.
Ela foi empurrando o carrinho de bebé, que tinha cobertura de plástico para proteger da chuva. Fez manobras cuidadosas entre as mesas, como se tentasse não acordar a criança. Sentou-se, pediu um galão e uma torrada e ficou sozinha, a comer em silêncio, com o carrinho ao lado, a tapar a passagem no corredor da direita.
Esteve ali dez minutos, a olhar com severidade para os clientes. Depois, pagou com uma nota de vinte e agradeceu à empregada, como se tivesse tomado chá e bolinhos.
Saiu, de novo em manobras confusas, pedindo desculpa, apesar de ninguém lhe devolver o sorriso.
Pensei que seria talvez uma mãe solteira em desespero. Mulher dos seus trinta e tal. Fiquei incomodado, a meditar naquilo: deixavam uma desequilibrada passear o seu bebé?
Depois do almoço, encontrei a doida na rua. Estava a falar para dentro do carrinho e, não sei porquê, aproximei-me, talvez para lhe recomendar que procurasse ajuda (deu-me para esta hipocrisia). E, quando me aproximei, percebi. Debaixo da cobertura de plástico, havia um pequeno volume de roupa a simular uma forma cilíndrica. E ela mostrava-lhe o dedo espetado no ar, avisando gentilmente um bebé imaginário.

publicado por Luís Naves às 19:52 | link do post