Quarta-feira, 28.12.11

Desencontros

Mal tivera tempo para tapar a boca com a mão. A rapariga recuou do espirro e olhou para ele, com uma expressão assassina. Sentiu-se trespassado por mil agulhas de angústia alheia. Os outros passageiros tentavam virar as costas e, de facto, ficaram só os dois a olhar-se um ao outro, num confronto, como amantes zangados, cercados pelas costas ostensivas dos passageiros, que tinham criado um muro de betão para a privacidade deles.
O autocarro deu um súbito solavanco e imaginou que alguém tivesse atropelado um cão solitário, ou algo assim, mas tinham passado por dentro de um buraco cheio de água, formando uma onda que vergastou o passeio onde duas velhinhas tentaram ainda, com os seus frágeis guarda-chuvas, impedir a chapada de água. Um dos guarda-chuvas era amarelo, o outro encarnado. Ficaram ambas as velhinhas a pingar e a gritar para os passageiros da traseira do autocarro, que tinham contribuído para a temível onda. Lembrou-se da história da borboleta: o seu peso ajudara a provocar um mini-tsunami urbano.
As costas dos passageiros oscilavam para cima e para baixo, das gargalhadas que se ouviam sem se ver. Era um pouco como o espasmo antes do espirro, mas só com riso.
Distraído no seu casulo, sabia que se transformara num pária, a enfrentar a sua amada assassina, que não se conseguia virar de costas, presa entre os corpos comprimidos. Ela tinha caracóis louros e um olhar doce, agora transtornado. Os germes da constipação tinham voado por toda a cabina. Era inverno e estas coisas propagam-se, pensou, filosoficamente.
Em breve, a gripe estaria em todas as cabeças e ainda sentiu uma espécie de formigueiro, ao aperceber-se do museu de silêncio que cobria a eternidade. Uma mulher gorda olhou-o com fúria, mas ele sorriu-lhe em resposta, no exacto instante em que rebentou num imparável impulso de tosse cava. Tossiu, tossiu, libertando-se das entranhas. E a rapariga por quem se apaixonara deve ter sentido um pouco do bafo quente da sua respiração, moveu pobremente o braço, desalentada, e inspirou profundamente, embora não o quisesse fazer.
Por vezes, as pessoas fazem o contrário do que querem.
O autocarro chegou à paragem inundada e travou com estrondo. Os passageiros tombavam uns em cima dos outros, mas é o mesmo que acontece com os pinguins (vira isso num documentário) protegem-se uns aos outros com os corpos, amparam-se e não caem. Imaginou: se os pinguins caírem, será uma queda em dominó.
Saiu do autocarro e sentiu o vento refrescado. Era inverno e encheu os pulmões com ar impuro da cidade. A rapariga também saiu naquela paragem, dirigindo-lhe um insulto de despedida. Nunca mais a veria. Um amor morrera à nascença. Observou-a melhor, olho de perito: não perdera nada de especial, tirando os caracóis louros e a expressão doce.
E em passos cada vez mais febris, largou as solas dos sapatos molhados no chão escuro e endurecido da estrada. Alcatrão do melhor, lisinho e lixado.

 

 

Este continho absurdo e um bocadinho nojento (mas que me diverte) foi escrito em Dezembro de 2010 e publicado em Emoções Básicas. Estava tão constipado e fungoso como estou agora.

publicado por Luís Naves às 19:09 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 04.12.11

A viagem (1)

Em cada dia de trabalho, antes de seguir para a polícia cívica, Luciano ganhara o hábito de passar num botequim do caminho e beber um bagaço que lhe aconchegava o estômago e tranquilizava os nervos. Fez isso mesmo, desatento, a pensar em sair daquela vida. Lisboa andava agitada, o Verão de 1910 demasiado quente, as discussões políticas e o ambiente geral de conspiração, que não ajudava ao sossego das almas. Uma vez, quase emigrara para o Brasil, chegara a ter o dinheiro para o bilhete do barco, mas fraquejara-lhe a disposição à última hora. Depois, a ideia dissipara-se, devagar, num sonho vago que, não morrendo inteiramente, ia ficando apenas num cantinho escondido das suas ideias.
Não era homem para aventuras e, nessa manhã, tudo lhe pareceu tranquilo. O guarda de serviço explicou-lhe que não se passara nada de especial, apenas rotinas, uma cena de pancadaria, uns meliantes no calabouço, mas nenhum deles com um nome que brilhasse em notícia de jornal. Não, senhor Luciano, não se passara nada de especial, apenas uma noite tranquila. E, de repente, o homem fez um esgar de surpresa, de quem se lembra de algo, assim, há uma mola que estala no crânio e que faz trabalhar a relojoaria delicada da memória, e a pessoa tem de fazer aquele gesto um pouco imbecil que é um misto de pedir desculpa e assumir uma falta grave, apesar de tudo perdoável:

   − Como é que eu me esqueci disto? O caso das mulheres detidas por quererem enterrar um morto…
   − Assim, sem mais nem menos, enterrar o morto…
   − Assim, sem mais nem menos, uma história escabrosa, que deve interessar ao seu jornal, senhor Luciano.
O repórter pensou que os mortos são para enterrar, nem servem para outra coisa, mas fez um ar desinteressado e ao mesmo tempo entendido das subtilezas do crime; afiou o bigodinho fino, molhou os lábios, tentando não revelar a ansiedade (àquela hora já estava um calor das colónias). Tirou o bloco de notas e disse:
   − Mas conte lá isso, senhor guarda.
E o outro narrou uma história confusa de como duas mulheres tinham velado o morto sem chamar as autoridades. Denunciadas e presas, suspeitas de crime, naturalmente.
   − E quem era o falecido?
   − Deixe-me ver… − o guarda consultou um grande livro cinzento, tomou-lhe bastante tempo, leu, numa voz arrastada, que era um tal Major José Neves. Ou das Neves, não ficou muito claro.
   − E morreu de quê? Envenenado?
   − Ah, isso não sei!
   − E posso entrevistar as assassinas em primeira mão?
O cívico aceitou a propina da praxe e facultou-lhe o devido acesso às entrevistas. Subiram até aos calabouços e o repórter começou de imediato a desconfiar do enredo que lhe tinha contado o agente. As mulheres estavam numa das melhores celas, da ala esquerda, ou antes, em duas celas, porque havia duas suspeitas e uma delas era uma senhora, por sinal distinta, a dona Efigénia, chamava-se.

 

(continua)

publicado por Luís Naves às 23:16 | link do post | comentar

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