Sábado, 19.05.12

Dois ensaios sobre a arte contemporânea

Dois vencedores do Prémio Nobel da Literatura (Orhan Pamuk e Mario Vargas Llosa) escreveram recentemente pequenos ensaios, com a característica comum do estilo elegante e da riqueza de ideias.
O escritor turco publicou um livro já traduzido em português O Romancista Ingénuo e o Sentimental (Ed. Presença) que junta as suas conferências sobre literatura, na Universidade de Harvard. Estas conferências são uma velha série que já deu pelo menos um outro livro famoso sobre a arte da escrita, Aspects of the Novel, de E. M. Forster (este último escrito nos anos 20, é provável que esteja em português, mas só conheço a versão inglesa).
Julgo que o livro de Pamuk não é apenas sobre a escrita, mas sobre o prazer da leitura. O texto está repleto de observações acessíveis, nada pretensiosas ou demasiado técnicas. A certo ponto, o escritor explica como um dos seus prazeres na leitura de romances é o de tentar adivinhar aquilo que num texto é imaginário ou vivido. O autor explora de forma muito inteligente conceitos como a autenticidade, os jogos entre o real e o imaginário, a fragmentação e a noção de que os grandes romances têm um “centro”, enfim, chamem-lhe eixo ou núcleo, mais ou menos escondido e cuja busca é, para Pamuk, o essencial do prazer da leitura. “A escrita do romance, para mim, é a arte de falar de coisas importantes como se fossem insignificantes e de coisas insignificantes como se fossem importantes”, escreve o romancista na pág. 120 deste breve ensaio que não se esgota numa única leitura.


O peruano Vargas Llosa publicou entretanto em Espanha um trabalho, La civilización del espectáculo,  (Alfaguara) que certamente não tardará a ser traduzido em Portugal, pois é o seu primeiro livro escrito depois do prémio. A obra é bem mais pessimista do que a de Pamuk, tratando-se de uma reflexão sobre a degradação da cultura e o declínio dos intelectuais e das elites. “Na civilização do espectáculo, o intelectual só interessa se seguir o jogo da moda, tornando-se num bobo” (pág. 46), afirma Vargas Llosa, descrente da qualidade da literatura contemporânea e muito crítico da falta de originalidade e do excesso de niilismo nas artes. “Nos nossos dias, o que se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo” (pág. 49).
O livro explora outros aspectos do quotidiano, da educação à política, a banalização do poder e das ideias, a superficialidade nas próprias relações humanas, o consumismo desenfreado. São amplamente citados e discutidos outros autores que exploraram esta ideia da civilização do espectáculo (a expressão não é de Vargas Llosa) e talvez o autor seja demasiado pessimista na sua visão de que a cultura está a ponto de desaparecer. Certas ideias foram exploradas pelo romancista peruano em crónicas antigas, algumas das quais são incluídas no volume. É inegável que, tal como diz Vargas Llosa, hoje triunfa o frívolo e o entretenimento, ao mesmo tempo que os intelectuais (como os concebemos no passado) se tornam invisíveis na nossa sociedade, desprovidos de qualquer influência. Enfim, este é um livro muito bem escrito e de grande clareza, cuja rápida tradução será bem útil.

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publicado por Luís Naves às 14:33 | link do post | comentar
Domingo, 08.04.12

Um livrinho de previsões

Numa feira de velharias comprei por um euro um pequeno livro dos Cadernos do Século com o sugestivo título “Como Viveremos em 1980”. O volume foi publicado em 1970 e inclui ensaios escritos por diferentes autores, abordando vários temas do futuro próximo. Um dos textos é do escritor e ensaísta Arthur Koestler, uma das figuras mais interessantes do século XX, um homem cheio de contrastes e defeitos, que escreveu um dos romances mais poderosos que conheço sobre o totalitarismo, O Zero e o Infinito.


O livrinho de previsões que refiro no início do post está virado para o futuro mais distante (sobretudo o ano 2000), mas Koestler reconhece a aceleração da História e escreve para 1980, prevendo que nos espera “trabalho, família, mediocracia”. As pessoas continuarão a ser monogâmicas, conservadoras, bastante medíocres, considera o autor, com a monarquia a velar pelo país (o Reino Unido, onde ele vivia desde a Segunda Guerra Mundial). Ou seja, o futuro teria tudo mais ou menos na mesma quantidade e forma: “É a minha vózinha que me murmura que, em 1980, depois do jantar, estarei calmamente ocupado a fazer as minhas palavras cruzadas, como de costume”, escreve Koestler.
Esta última frase deixou-me boquiaberto. Em 1976, Koestler foi diagnosticado com Parkinson e, em 1980, com leucemia. A sua saúde degradou-se nos anos seguintes, a ponto do autor ter decidido suicidar-se em 1983, acompanhado pela mulher, que era relativamente jovem na altura. Até na morte o escritor anglo-húngaro foi uma figura controversa e ninguém compreendeu o pacto suicida, sobretudo como foi possível Koestler não convencer a sua mulher a desistir da morte prematura. Alguns dizem que o escritor era uma pessoa brutal. Tinha poucos amigos e, devido ao que escreveu, era odiado pela esquerda pró-comunista e pelos sionistas.


A ideia de que a vida dos indivíduos não muda assim tanto é interessante e julgo que se trata de uma observação verdadeira na maior parte do tempo. Mas não parece válido para as grandes acelerações da História. Em 2012, não me atrevo a dizer que daqui a dez anos estarei tranquilamente a fazer as palavras cruzadas. E, no entanto, o autor de O Zero e o Infinito sabia como a vida pode ser incerta: no romance, um alto dirigente comunista, Rubachov, vai sendo interrogado durante as purgas de Estaline e tudo o que fez torna-se inexplicável. As suas certezas são destruídas, uma a uma. Koestler esteve no corredor da morte, em Espanha, e escapou por pouco. Isso deve ter marcado a sua vida. Tinha 78 anos quando se suicidou: este homem de suprema inteligência não viveu o suficiente para assistir ao fim do sistema comunista, que aconteceu apenas seis anos depois da sua morte. Acho que nem sequer lhe passou pela cabeça que isso fosse possível.

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Terça-feira, 27.03.12

A verdade de Casablanca

Passaram 70 anos deste filme*, Casablanca, e mantém-se o fascínio. Não será a melhor obra da época, mas há aqui uma magia curiosa, mistura de romantismo sentimental e fantasia poética. As personagens nem são credíveis e o carácter propagandístico tira consistência à história; os alemães são maus e os marroquinos não passam de figuras do cenário. Os diálogos parecem fantásticos: "Porque veio para Casablanca?"; "Vim pelas águas"; "Mas isto é o deserto"; "Fui mal informado". **
O que sempre me fascinou em Casablanca não foi a dupla de amantes, mas o marido enganado, o combatente da liberdade Viktor Laszlo. Para mim, este continua a ser um dos grandes nomes de uma personagem ficcional, a ponto de não me parecer de todo ficção.
A minha tese é de que existiu um Viktor Laszlo real e atrevo-me a afirmar que ele viveu a essência desta história, ou seja, o conhecimento de que a mulher amada hesita entre amor e dever, escolhendo o dever, que é a prisão do casamento. Que destino mais humilhante se pode imaginar, um homem apaixonado por uma mulher que não o ama verdadeiramente?

A primeira pergunta: "porquê Viktor Laszlo"? Este é um nome tipicamente húngaro, a nacionalidade do realizador e a origem dos dois argumentistas do filme. Todos judeus de Budapeste, portanto, conscientes de que este nome não podia pertencer a um checoslovaco. A Hungria estava com o Eixo, pelo que um herói húngaro seria uma impossibilidade em filme de propaganda de 1942. Um étnico húngaro também não era hipótese, pois estes interpretavam o Tratado de Trianon (a Versalhes para o leste) como uma humilhação.
E, apesar disto, os argumentistas mantiveram o nome. Soava bem, mas não há explicação para não se ter inventado outra identidade. Um nome eslavo ou alemão era complicado, mas o que impedia um nome judeu ou neutro para a personagem?
Podemos andar aos círculos e chegamos sempre ao mesmo: para os argumentistas, Viktor Laszlo era um herói autêntico, que viveu os elementos que constituem as vivências incluídas neste embrulho imaginário. A cena da estação é fantasia, todos os pormenores do café de Rick são inventados, mas a situação da escolha entre amante e marido, essa é a parte que resulta do relato posterior do verdadeiro Laszlo. Um relato feito, talvez, num café de Hollywood.


Penso que a viagem para Lisboa integra também a história vivida. Foi antes de embarcar naquele avião que o Laszlo real percebeu, sem margem para dúvida, que algures no passado a sua mulher o escolhera a ele após hesitar sobre um destino alternativo. A opção exigiu coragem e nunca saberemos  o motivo, mas no coração do marido abre-se naquele momento uma amarga ferida. Não pode ser de outra forma.
Hollywood disfarçou tudo isto numa fantasia onde há um improvável pianista Sam e um ainda mais improvável polícia francês. Pouco importam os nomes da mulher e do amante: foram tirados da lista telefónica de Sunset Boulevard. Nunca existiram daquela maneira.
Por isso, Laszlo é a âncora que nos prende à realidade, o ponto fulcral da história. Tirem-no do filme e aquilo não passa de uma limonada.

 

Esta é a ideia em que se baseou o meu livro O Silêncio do Vento. Como seria o autêntico Viktor Laszlo, personagem que pretende salvar o mundo e não consegue salvar-se a si mesmo? Laszlo sabe que a mulher o escolheu por dever e vive o impasse do amor traído numa Lisboa que paira no limbo do conflito como se fosse uma caravela parada, à espera do vento.

 

* O filme estreou em Novembro de 1942, a verdadeira data do aniversário.

** "Prendam os suspeitos do costume" é uma frase genial que se tornou um lugar-comum.

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Sábado, 24.03.12

Se traduzisse o que já escrevi

À primeira leitura desta crónica de Alexandra Lucas Coelho (ALC), no blogue Atlântico Sul, achei que a autora tinha razão. Só pensei no assunto depois de uma segunda leitura, quando percebi que ALC acredita ter havido uma qualquer alteração que não descortino.
O exemplo da amiga da cronista é notável. Ela ganha 8,5 euros por página traduzida. E comecei a fazer as contas sobre o dinheiro que ganhei com os trabalhos de ficção que me publicaram nos últimos 15 anos: o facto é que não chegou a um euro por página.
Se traduzisse para português o que já escrevi, ganharia oito vezes mais.


ALC esquece na sua crónica que dificilmente um artista ganha dinheiro com aquilo que produz. E outra omissão está na circunstância de que isso sempre foi assim e continuará a ser. Não há mudanças nessa triste condição. O artista pobre, que luta para ser publicado, para ter leitores, faz parte da tradição da civilização ocidental, pois não há mercado para todos e sem a crueldade do esquecimento, sem massa crítica, não existe verdadeira arte. Podia dar aqui milhares de exemplos de poetas que morreram à míngua, de pintores que não venderam um único quadro, de grandes romancistas desprezados pela crítica (e não estou sequer a falar dos grandes romancistas que queimaram a única cópia da sua obra magna).
A cronista pensa que o Estado devia dar uma oportunidade aos artistas indignados e incompreendidos (ela define-os como elegantes), mas não vejo como é que o Estado pode escolher melhor do que o mercado. Aqui só há pescadinhas-de-rabo-na-boca: se o jovem artista tem um grande romance na cabeça, é pena que tenha de permanecer desempregado, mas uma bolsa de criação artística exige uma escolha com critérios, pelo que tenderá a ser seleccionado para esta bolsa um escritor já com nome. Ninguém arriscará num desconhecido. Só uma editora arrisca num desconhecido.
Se o Estado tiver dinheiro (o que não é o caso) deve incentivar a grande arte, mas acontece que não é muito bom a fazê-lo. Quem são os bons? Se nos lembrarmos que 99% dos artistas serão esquecidos ainda em vida, a que propósito um Governo sustentará este e não aquele?
Já o disse: se traduzisse o que já escrevi ganharia oito vezes mais. Observando bem a minha realidade, sou um escritor amador que teve a sorte rara de publicar cinco livros, três dos quais numa editora que faliu, talvez por ter apostado em pessoas como eu, que não vendiam. Tive a minha dose de pouca sorte, nunca ganhei um prémio. Ou antes, ganhei durante alguns minutos. O meu primeiro livro foi escolhido por um júri para prémio revelação da APE, mas recebi um telefonema de alguém que me perguntou se ia publicar ou tinha publicado o livro (o regulamento determinava a publicação em determinada editora). Respondi que sim, que me comprometera, semanas antes, com uma editora que aceitara esse romance. A questão ficou assim resumida: se eu renunciasse à minha palavra, ganhava o prémio.

 

Nunca contei esta história por escrito. Alguns dirão que devia ter aceite, mas julgo que não têm razão. A ideia presume que um romancista só deve escrever quando tiver mil leitores e ganhar dez euros por leitor. Ou dez centavos por palavra. Eu só deveria escrever ficção quando ganhasse com a ficção que escrevo mais do que ganho no jornal onde trabalho, quando ganhasse aquilo que é justo e que me poderia transformar num profissional (deixaria de ser o romancista amador e poderia ter qualidade). Enfim, se traduzisse o que já escrevi, ganharia oito vezes mais, e mesmo isso seria pouco para começo. A alternativa será escrever para os leitores desconhecidos que passam por aqui, escrever para o silêncio, escrever para uma gaveta invisível que alguns podem vasculhar de forma displicente. Continuar porque há algo que deve ser dito, o que não deixa de ser muito pretensioso da minha parte.


Sou um dos 99%, tento não dizer frases floreadas e pretensamente poéticas, sou impertinente e julgo ter ideias próprias, gosto de remar contra a corrente, mas sobretudo não tenho paciência para esperar pelos meus 5 mil leitores (ou serão 10 mil?). Por isso escrevo para mim, para as duas dúzias que passam aqui, para os mil que compraram livros meus (alguns mais do que um título) e escrevo ainda para aqueles milhões e milhões que nunca me lerão, sem perderem alguma coisa de especial. Escrevo sem pensar se vou ganhar mil euros ou mesmo nada. É um trabalho duro e paradoxalmente invejado, esta tarefa inútil de lançar palavras ao vento.

 

A imagem é do pintor Carl Spitzweg (1808-1885), O Poeta Pobre

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Domingo, 11.03.12

O tenente Blueberry

Escrevi a notícia aqui: o autor de BD franco-belga Jean Giraud faleceu em Paris. Assinava Moebius e publicou na revista Pilote as Aventuras do Tenente Blueberry, a história de um militar americano no oeste imaginário. O herói é um dos meus favoritos e a personagem é claramente inspirada no actor francês Jean-Paul Belmondo, no nariz rachado, magreza física, até no carácter.
A paisagem do oeste americano, toda ela recriada a partir da memória cinéfila, funciona como uma das personagens das histórias de Blueberry, um oficial que geralmente luta pela justiça, insubmisso e desobediente, que se aventura no território comanche, e uso aqui a expressão para designar a zona inexplorada onde se escondem todos os perigos do mundo.
Esta BD não seria possível sem o realismo brutal e estranhamente poético de Sérgio Leone e parece-me ver ali as cores de Duelo ao Sol, um filme melodramático que deixou na minha memória a sua paleta quente e sensual (a rudeza da terra em contraste com o erotismo do corpo feminino). A abordagem de Moebius não seria possível sem a reminiscência do western no cinema, de Peckimpah a John Ford. Aliás, Blueberry podia muito ter sido um tenente no regimento de She Wore a Yellow Ribbon(não me lembro do título em português) e talvez não se desse mal com John Wayne, com quem tem parecenças.

 
O que explica este nosso fascínio pelos grandes espaços? Talvez o sufoco da vida moderna, a nossa falta de liberdade: em cidades opressoras, vidas incompletas, empregos esmagadores, o quotidiano de vexames. Independentemente da explicação, a imaginação de Moebius captou esse desejo de fazer largar a imaginação pelas planícies inesgotáveis do sonho. Fez isso ainda melhor nas obras de ficção científica, mas apeteceu-me falar do western.

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Domingo, 04.03.12

Da estupidez

Num livrinho chamado Da Estupidez, o escritor austríaco Robert Musil tentou explicar que há uma “estupidez inteligente”,  que corresponde a uma doença mental e que é especialmente perigosa, pois “ameaça a própria vida”. A certo ponto, o autor citou uma frase do seu livro O Homem sem Qualidades que resumia bem a ideia: “Não existe um único pensamento importante que a estupidez não saiba imediatamente utilizar”.
Segundo Musil, a estupidez pode ser uma abdicação da inteligência, algo que o autor conhecia bem, pois escreveu este texto para uma conferência em Viena, em 1937, um dos anos mais produtivos de sempre para a colheita da imbecilidade humana. O autor também refere que todos somos por vezes estúpidos e que essa estupidez desinformada possui utilidade, já que se triunfasse a regra de ninguém julgar ou decidir antes de ter toda a informação sobre um tema, então o mundo ficaria paralisado.


“Como o nosso saber e o nosso poder são limitados, estamos reduzidos, em todas as ciências, a enunciar juízos prematuros”, escreveu Musil, antes de concluir que esse defeito deve ser limitado ao mínimo possível.
Veterano da guerra de 14, o famoso escritor vira a sua dose de dor. Não era propriamente um homem de esquerda, mas na altura em que escreveu este texto, assistia impotente à devastação que o nazismo provocara na inteligência dos seus compatriotas. Aquele era o fim de uma época, o colapso da civilização humanista, o triunfo de uma concepção absurda de poder, que caminhava para a destruição global.
A Áustria foi anexada em 1938 e a obra de Musil proibida. Acompanhado da mulher, o escritor refugiou-se na Suíça, onde morreu em 1942, faz este Abril 70 anos. Tentara em vão emigrar para os Estados Unidos, onde teria mais hipóteses de sobrevivência financeira, mas restavam-lhe poucos amigos e era um homem esquecido. Imagino a amargura que deve ter sentido, ao morrer sabendo que a estupidez triunfara.

 

A pintura Metropolis é de George Grosz e julgo que o expressionismo capta a essência da época.

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Terça-feira, 21.02.12

Loiras de Hitchcock

A actriz loira e sofisticada, cheia de classe mas também de inesperada sexualidade, é uma das mais famosas obsessões de Alfred Hitchcock, autêntica assinatura do grande mestre do cinema. O próprio explicou em entrevista a François Truffaut o sentido deste recurso, numa frase hoje considerada cruel, mas que o francês emendou, ao sugerir que as loiras de Hitchcock resultam do fascínio pelo “paradoxo entre fogo interior e superfície fria”.
Vem isto a propósito de um texto que escrevi onde confundia duas loiras de Hitchcock: Tippi Hedren (na imagem) e Eva Marie Saint, atribuindo à segunda o famoso papel de Os Pássaros, essa distopia ambiental ou fantasia erótica que tem perturbado as gerações. Eva Marie Saint é a espia infiltrada em Intriga Internacional, cujo disfarce está na iminência de ser desnudado por um Cary Grant envolvido acidentalmente numa complexa conspiração de agentes secretos. O filme é o remake de Os 39 Degraus, a obra mais divertida do realizador, feita ainda em Inglaterra. Tippi é diferente de Eva e o próprio Hitchcock a definiu como uma beleza clássica, como já não existia no cinema (falava nos anos 60 e mais razão teria agora).


O tema presta-se a digressões confusas. Podia, por exemplo, referir Ingrid Bergman, mas não acho que seja uma loira de Hitchcock, pelo menos em Spellbound e Notorious, as duas obras-primas do mestre; gosto imenso de Kim Novak, em Vertigo, e menos de Doris Day, em O Homem que Sabia Demais, onde surge muito histriónica; Grace Kelly era a favorita do mestre, tinha beleza incomparável e graça infinita; e nunca saberemos o que levou Hitchcock a torturar duas das suas actrizes; Janet Leigh, em Psico, passou seis dias a filmar a cena do chuveiro; e Tippi Hedren cinco dias a levar com pássaros vivos que eram atirados na sua direcção, também para uma única cena, onde algumas das feridas são reais. Para as suas loiras, o realizador inglês não poderia ter usado actrizes famosas da época, como Marilyn Monroe ou Angie Dickinson, cujo excesso de sexualidade teria estragado o efeito pretendido de enganar o público e criar a ambiguidade em relação à personagem (isto acaba em sexo, ou não?); aliás, para as figuras que o autor tinha em mente, Novak e Leigh parecem ser erros de casting e não encaixam na definição do “fogo gelado”. Sobretudo a actriz de Psico, assassinada com malvadez a meio do filme, na cena mais erótica que o mestre filmou em toda a sua carreira.

No fundo, as personagens de Eva Marie Saint e Tippi Hedren são o arquétipo da loira de Hitchcock, o que justifica a confusão que motivou esta crónica. Com a sua sexualidade oculta à maneira de um iceberg, ambas as actrizes parecem pedras de gelo à superfície, mas aquilo que escondem representa uma ameaça. Os homens não poderão resistir, as mulheres rivais não terão hipótese.

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Quarta-feira, 15.02.12

O explorador polar

O explorador polar Robert Falcon Scott morreu durante uma tempestade, em Março de 1912, junto a dois dos seus companheiros, quando se encontrava a escassos 20 quilómetros de um depósito de comida e combustível. Os ingleses estavam desidratados, esfomeados e com graves queimaduras, morreram do frio e fadiga, nada garante que se pudessem salvar, mesmo chegando ao depósito de uma tonelada. Os corpos foram descobertos por incrível sorte, em Novembro, e com eles o diário de Scott, publicado no ano seguinte em Inglaterra. Ainda hoje a Última Expedição se lê com admiração e espanto. O oficial da marinha britânica tornou-se herói nacional, roubando na morte a glória da conquista do pólo sul ao norueguês Roald Amundsen, que o batera na corrida por algumas semanas.
A história não costuma ser benévola para o segundo melhor, mas durante décadas, o capitão Robert Scott foi a excepção. Afinal, pagara com a vida e o texto que deixou provava a sua coragem. Isto foi assim durante duas gerações mas, nos anos 70, em tempos mais cínicos, surgiu uma história alternativa: Scott falhara miseravelmente, por estupidez, arrogância e mau planeamento. Amundsen era o verdadeiro herói da Antárctida, o primeiro a chegar ao pólo sul, devido à sua boa preparação, flexibilidade e sobretudo à simplicidade com que abordara o problema. De um lado, o marinheiro colonialista sem competência para chefiar um couraçado, do outro o homem moderno e pragmático.


Entretanto, veio a revisão dos revisionistas. Scott cometera erros, mas estes não explicavam o desastre. Também fora forçado a uma corrida ao pólo devido a uma atitude menos cavalheiresca do norueguês, mas o rival surgia no diário com referências do maior respeito. O feito do oficial britânico era extraordinário sob qualquer ponto de vista, sobretudo no plano científico. Esta argumentação é hoje convincente, lendo as últimas entradas do diário de Scott. Os três homens que se podiam ter salvo foram atrasados por um dos companheiros, que estava ferido na perna; na realidade, sacrificaram a sua vida ao não abandonarem o ferido. As temperaturas que enfrentaram (por duas vezes, no caminho de ida e na volta) foram invulgarmente baixas para a época e para a região. Scott teve um azar incrível e, em condições normais, teriam sobrevivido pelo menos três dos cinco homens, talvez quatro.
Os membros da expedição deixaram os corpos no local onde os exploradores faleceram. Já estavam sob dois metros de neve e hoje calcula-se que estejam a uma profundidade de mais de 30 metros. O glaciar desliza lentamente para o oceano e, num prazo de 300 anos, os três britânicos estarão no interior de um bloco de gelo que irá separar-se do continente. O gigantesco iceberg flutuará então no mar e o capitão Scott terá finalmente o seu couraçado.

 

A imagem foi tirada a 17 ou 18 de Janeiro de 1912, quando os cinco britânicos descobriram que os noruegueses tinham chegado um mês antes ao pólo sul. Scott está de pé, no meio. Só depois de escrever este post reparei que faz agora cem anos. Por esta altura, há exactamente cem anos, quatro sobreviventes estavam a começar a sua agonizante derradeira marcha, tentando chegar ao grande depósito seguinte. Atingiram os objectivos secundários, mas nunca chegaram ao último. O tempo, com temperaturas vinte graus inferiores às da época, impediu a continuação. Depois, não havia mais nada a fazer, excepto esperar o fim. Scott ia escrevendo. A sua última entrada é de 29 de Março, uma frase comovente: "por amor de Deus, tomem conta dos nossos". 

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Terça-feira, 14.02.12

O guarda-redes de negro

Foi Gyula Grosics quem inventou o estilo dos guarda-redes vestidos de negro. Era um homem baixo, mas parecia um gato a saltar; e o equipamento, o cabelo escuro, intimidavam. Foi o primeiro guarda-redes a jogar com os pés, saía da baliza como se fosse defesa e ia por ali fora, a fintar avançados.
O resto é conhecido: pertenceu à equipa dourada. Esteve no jogo do século, na batalha de Berna e na final de 54. Ali, contra os alemães, sofreu um golo a seis minutos do fim, por ter escorregado na relva húmida. Culparam-no pela derrota, mas em 1956, quando os outros jogadores fugiram da equipa, ele regressou; não que fosse comunista, pelo contrário, apesar de ser filho de mineiros.
Humilharam-no, mas isso era normal na época. Foi guarda-redes em Tatabanya, essa cidade de fumos e caixotes de betão, quando queria jogar no Ferencváros, o clube que as autoridades odiavam.
Passaram décadas e um dia fizeram-lhe uma homenagem, vinha nos jornais. Inscreveram-no como jogador aos 85 anos e ele apareceu vestido de negro, cabelo de neve, e assim cumpriu o sonho de jogar oficialmente pelo Ferencváros, que reservou para o seu nome a camisola número um do clube, onde afinal ele nunca jogara. Grosics tocou na bola, saiu em ovação, cumprindo o velho sonho. E, ao acenar para a bancada, viu-se na mística névoa a lenda em filme cor de cinza, e parecia fintar avançados, vestido de preto, rigorosamente, como se vestisse de casaca.

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Segunda-feira, 13.02.12

O caso Tintim

O caso surgiu em 2007, mas só agora houve um veredicto do tribunal. Afinal, Tintim não está fora da lei, embora o advogado do queixoso pretenda apelar da sentença.

O envelhecimento de uma obra de arte como Tintim no Congo não devia ser crime, mas um dia os cigarros serão tirados da boca dos detectives matadores dos anos 30, a linguagem extirpada de todas as palavras como "nigger", será proibido ver um homem a mandar um piropo a uma mulher e a nudez ficará tapada, para não ofender minorias religiosas. É como os beijos tirados dos filmes em Cinema Paraíso

A cultura politicamente correcta que invadiu o quotidiano é um dos evidentes sinais de declínio da civilização ocidental. No seu livro A Study of History, Arnold Toynbee fala do colapso como a perda do poder criativo das "minorias criativas" que têm a capacidade de influenciar "as massas sem criatividade". (Desculpem as repetições, mas é assim que ele explica a questão).

Há outras teorias sobre a natureza cíclica da história e recomendo a leitura de um livro sobre este tópico: Civilização, o Ocidente e o Resto, de Niall Ferguson. O autor cita várias ideias sobre "sistemas complexos", admitindo, por exemplo, que é impossível fazer previsões com base em dados sobre o passado. Muito interessante a informação de que algumas civilizações desapareceram em pouco tempo, escassas décadas.

 

Se Toynbee tinha razão, então a misteriosa crise de criatividade dos nossos dias ganha outro peso. Não há explicação para os livros, a música e a pintura incompreensíveis. A ponto do compreensível ser desprezado pela crítica, gerando uma auto-censura nos artistas, que tentam fazer o "mais literário", o "mais contemporâneo", o "mais conceptual" (na pintura, "pictórico" é negativo; na literatura, "uma história" é a morte do artista; na música, ter "melodia" é anátema). Compare-se a própria música pop actual com a que era feita há vinte anos e vemos o fenómeno no seu esplendor. O declínio é evidente. Olhe-se para os filmes de Hollywood: contam-se pelos dedos os minimamente decentes feitos nos últimos vinte anos. Compare-se por exemplo a frescura do primeiro Guerra das Estrelas com a patetice do quarto episódio. Tintim escapou a ser fora da lei, mas não se livrou de uma adaptação hollywoodesca.

Estou apenas a dar exemplos, mas parece haver uma crise de ideias criativas ou estas parecem estar ao serviço exclusivo da sociedade de consumo.

Ao mesmo tempo que se esgota o poder criativo, a sociedade questiona-se sobre a validade dos seus clássicos, inclusivamente com a sua rejeição (o caso Tintim). O teatro faz reinterpretações e pastiche dos grandes textos, as orquestras sinfónicas são dispensáveis em tempos de crise (para quê ouvir Brahms?) e o estudo da língua, pelo menos para as massas, inclui textos de televisão. A arte tende para fogo de artifício, o estilo é tudo. Até na política a criatividade é defeito. Uma universidade americana fez a análise linguística do discurso do estado da nação de Barack Obama e concluiu que tinha sido um dos mais fracos de sempre, com nível de apenas sexto ano. O grande orador usou linguagem mais do que básica, pois o mínimo denominador comum dá votos e aponta o futuro.

 

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publicado por Luís Naves às 18:18 | link do post | comentar

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