Domingo, 09.12.12

O samurai

Ainda hoje, no meu bairro, é recordada com muita saudade a progenitora da Alice, a Dona Felismina, que deu em herança à filha o pequeno estabelecimento, uma leitaria entretanto modernizada em pronto-a-comer, que fica ali à esquina das escadinhas que dão para uma rua escondida. A mãe da Alice era uma mulher daquelas chamadas de armas, ou seja, mais dominadora do que se poderia presumir pelo seu corpo franzino. Parecia a Edith Piaf e sei que, em jovem, incendiou numerosos corações galantes e outros menos cavalheirescos; mas, enfim, só a conheci bastante gasta e passado o antigo esplendor. Parte da história também será bordada a lenda, pois sabemos como tudo nesta cidade acaba sendo um pouco romanceado, generosamente apimentado com venenos e intrigas.

   Quem verdadeiramente interessa neste relato é a Alice, que terá essas origens curiosas, embora pertençam a um passado que já nem imaginamos. E quem sabe o que se esconde em gerações ainda mais remotas? O facto é que ela tem lábios grossos, nariz achatado, o traseiro algo proeminente, caracóis enrolados num cabelo cor de azeitona escura.

   Na aparência, a Alice é uma mulher não muito diferente das outras: talvez um pouco mais redonda de carnes, o que faz sonhar alguns homens, entre eles o Carriço, discreto apaixonado e lugar-tenente do estabelecimento; o seu homem oficial, digamos assim, macambúzio e soturno, mas também ciumento, sobretudo quando vê possíveis rivais a cobiçarem o seu naco de carne com olhares famintos, nem que seja macho de passagem ou um zé-ninguém que jamais voltará.

   Alice não é alta nem baixa, não é velha nem nova. Anda sempre desmazelada, sem pinturas ou jóias; veste avental com nódoas. Mas não precisa de ornamentos, tendo aqueles olhos verdes, esmeraldas reais, embora a cor já esteja esbatida, enfim, porque o tempo passa.

 

  

 

publicado por Luís Naves às 18:54 | link do post | comentar
Quarta-feira, 28.11.12

Primeiro aniversário

Este blogue conclui hoje um ano de existência.

Foram publicados aqui mais de cem posts originais, de crónica, conto e poesia.

Este local serviu de oficina de escrita, para testar ideias literárias e ensaiar formas.

 

Agradecemos aos nossos leitores, sobretudo aos que nos seguem desde o início.

Em dia de aniversário, fica este conto, ainda em esboço... 

publicado por Luís Naves às 18:09 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Do outro lado da linha

Aquele número de telefone agora era meu, mas pertencera a outra pessoa. Descobri isso quando alguém me telefonou a querer falar com uma tal dona Otília, que eu não conhecia de lado algum. Quando expliquei que era engano, a pessoa do outro lado reagiu com espanto. Ao segundo telefonema, percebi que a culpa era da empresa operadora. O número fora reciclado.
   Devia ter tratado logo do assunto, mas confesso que achei graça e depois já passara a oportunidade para obter um número diferente. Às tantas, não era prático mudar, tinha ainda a chatice de perder umas horas a explicar que recebia chamadas para a anterior proprietária e, portanto, queria um número original, que não tivesse cliente anterior. A meu ver, pagava como novo algo em segunda mão. Tratava-se de um mero número de telefone, mas podia ser um par de sapatos: sempre que o utilizava, pairava aquela sensação amarga de que já alguém o calçara antes. Mesmo assim, nada fiz.
   Não sendo inteiramente racional, a ideia perturbava, mas o tempo foi passando e diluiu-se o choque inicial de saber que o número do meu telefone novo já pertencera a outra pessoa. Depois, descobri que tinha um prazer especial em receber as chamadas dirigidas à dona Otília, mas acima de tudo dava gozo ler as mensagens de texto que ela devia receber, algumas indecifráveis, outras crípticas, todas vagamente incompletas, omissas de informação e que me faziam pensar seriamente nas conjecturas sobre o aspecto daquela pessoa desconhecida. A situação não deixava, apesar de tudo, de ser um pouco irritante. Por vezes, atendia a chamada e alguém berrava do outro lado:
   “Queria falar com a dona Otília”.
   “É engano. Este número já não pertence à dona Otília”.
   Do outro lado da linha, havia sempre resistência a uma ideia tão evidente:
   “Está a brincar comigo”.
   “Não estou a brincar com ninguém. É engano”.
   “Mas a dona Otília deu-me este número”.

  

 


 
 

publicado por Luís Naves às 18:05 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Quarta-feira, 31.10.12

Rumo incerto

Naquele momento, observou através da janela a transformação das nuvens que deslizavam sobre o rio cor de cinza. Viu a sombra das pessoas que passavam, os rostos anónimos, as caras crispadas, os corpos prolongados no fim de tarde, sonâmbulos.
   A cidade cansada, de tantas vidas que ali se cruzavam, dos muitos sonhos e das existências dispersas. Cansada de tudo o que cada um desperdiçara das suas ambições. Cansada do conformismo e das ilusões que serviam de máscara. O cansaço de ver em demasia, à distância, através da vidraça suja pelo vento.
   O rio de gente não terminava. Havia destroços à deriva, poeira. A corrente era feita de fadiga apressada. As sombras, afugentadas pelo lusco-fusco tardio, espalhando-se em gestos dóceis. E, a certo ponto, irrompeu a luz na praça, a em vão se contrariava a noite, mas apenas com o efeito de aumentar os reflexos melancólicos no vidro.
   O senhor doutor quer outra dose?
   Aceitou em silêncio, com um único gesto da cabeça, olhando na direcção do empregado, como se o visse pela primeira vez. O empregado encheu de novo o copo que ele já esvaziara, foi generoso na porção, e colocou dentro ainda duas pedras de gelo, dizendo com falsa alegria que ele queria sempre duas pedras de gelo na bebida. Achou curioso que até os empregados de mesa se agarrassem a padrões inexistentes. Que estaria o empregado a ver? Um homem sentado a uma mesa a olhar para o tampo, ou a olhar para o copo ou para os transeuntes além da vidraça. E lá fora, no exterior, deambulavam sombras em busca de qualquer coisa indefinível, formando padrões que davam desordem ao mundo, circunstâncias banais, desejos, gestos, entoações, frases favoritas.
   Que veria aquele empregado, para além de um homem na sua solidão, embrulhado em problemas íntimos? O reflexo de alguém passado, as amargas desilusões secas na garganta. Seria apenas isso que ele via ou ainda menos? Como se cada homem fosse uma soma de incógnitas e de momentos falhados.
   E, agora, para onde iria? Ao pensar no vazio da sua casa teve um arrepio. A escuridão, o frio. Nenhum sorriso o esperava (os gatos não sorriem). Sim, o Gordo estaria à sua espera, feliz de o rever, mas era um gato meio maluco.
   O que pensam os animais irracionais?
   Quer mais alguma coisa, doutor?
   Não quero mais nada, João, apenas a conta…
   Que recebeu num pequeno prato. Pagou, com gorjeta generosa. Até compramos sorrisos!
   O empregado sorriu, desejou-lhe boa noite. Saiu do café triste e na rua juntou-se à multidão que deslizava. Decidiu não descer para o metropolitano e por isso caminhou até às ruas laterais, onde havia menos transeuntes. Estava uma noite fria e a cidade escondia-se nas suas torres de pedra, cada qual com o seu xadrez de luzes. E foi ao ficar mesmo sozinho que se sentiu pequeno e frágil, uma vida de rumo incerto.

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publicado por Luís Naves às 19:30 | link do post | comentar
Domingo, 28.10.12

O gordo joga à baliza

O campo era ligeiramente inclinado, a favor de quem jogasse do lado da linha de comboio, que passava ali a cem metros. Quando chovia, transformava-se num lamaçal e formavam-se pequenas lagoas castanhas. As balizas começaram por ser marcadas com pedras grandes e tínhamos de imaginar os postes. Os limites do campo foram desenhados por uma cicatriz direita, escavada na terra e um dos lados era a cerca do liceu, em arame, e que alguém mais pragmático tinha levantado, para todos poderem passar. Depois, arranjaram duas vigas redondinhas e altas para as balizas e prenderam um fio com duas latas em cada ponta e estas batiam muito nos postes quando havia vento, fazendo um barulho fantasmagórico.

   Para dizer a verdade, eu nunca jogava. No máximo, acompanhava os outros miúdos e apanhava as bolas, sempre a mendigar um lugar na equipa. Não era mais novo do que os outros, apenas mais pesado e lento. Ficava fora do campo a mandar bitaites e até me toleravam porque era bom aluno a matemática e ajudava-os nos problemas, isto quando havia aulas, pois nesse ano de 77 o liceu da Amadora ainda andava um bocado confuso. Foi o último ano de erre-ge-ás permanentes, mas quem ia para o campo de futebol não se interessava por política, antes pelo contrário, pertencíamos a uma fauna à parte, ainda no limbo entre as brincadeiras infantis e os primeiros namoros.

   O melhor jogador da turma era o Petróleo, um de cinco irmãos mulatos que moravam na praceta dos Crisântemos, na Reboleira. Era retornado e jogava de avançado, fazia daquelas fintas manhosas que os miúdos odiavam e levou muito soco à conta da sua habilidade. Ele e o irmão mais velho chegaram a entrar no Estrela, na equipa principal, mas o Manuel (assim se chamava) nunca saiu do banco. O Gonçalo, que era o capitão das equipas da turma, também chegou a tentar o futebol profissional, mas não teve sorte. Na altura, ele disse que o mister não fora com a cara dele.

   No primeiro ano do liceu (julgo que agora se chama sexto) era preciso aproveitar cada furo para ocuparmos o campo, pois o jogo acabava mal chegassem os alunos das turmas dos últimos anos. Até sermos enxotados, tínhamos o campo à nossa conta: sete de cada lado e ainda me lembro de alguns dos jogadores, entre os vinte que apareciam em cada jornada. O Osvaldo era um bocadinho gago e jogava e extremo, porque chutava com o pé esquerdo; foi para física e é professor de liceu; perdeu a gaguez. O João Afonso, um miúdo grande que jogava a defesa; morava no prédio ao lado do meu, na praça 1º de maio; teve uns problemas com a polícia e emigrou para Inglaterra. Havia outro João, que não jogava sempre, mas era bom aluno e deixava copiar; acabou Direito. E lembro-me de um miúdo louro, que já naquele tempo as miúdas adoravam; agora, tem uma loja de eletrodomésticos num centro comercial, perto da Amadora; na altura, jogava com estilo e gesticulava imenso, mas estava sempre a poupar-se em campo. Só para mim não havia lugar, nem para suplente.

   Um dia, deixaram-me entrar no campo, porque um dos miúdos coxeava, mas fiquei com a sensação de que as pernas se prendiam ao solo. Queria correr, mas não conseguia. Saltitava perdidamente, a vigiar a minha zona, a rezar para que não corressem por ali. De repente, alguém lançou a bola na minha direção, mas era quase no gozo, por ficar uns metros demasiado longe e ainda tentei lançar-me, mas não cheguei a tempo. A bola foi para fora. Simulei um gesto de impaciência, a imitar o Yazalde, apontando com os dois braços para o chão em frente aos pés, as palmas das mãos para fora. Queria dizer que o passe não fora perfeito. Mas os miúdos riram-se de mim.

   Não demorou muito e aconteceu outra desgraça: às tantas, vinha o Petróleo a fugir e levava a bola com ele, nem me fintou, foi só correr pela avenida livre de obstáculos e ficou em frente à baliza, com um golo fácil. Ainda tentei a perseguição, mas só dei quatro passos e já me era impossível respirar. Ouvi logo a sentença.

   "Gordo, ficas a apanha-bolas".

   Mandaram-me sair e reentrou o lesionado, que mesmo com o pé a doer corria mais do que eu. Lembro-me bem do tom autoritário que o Gonçalo usou e nem dava para argumentar, pois a bola pertencia-lhe. Recebera-a no Natal, era em couro, das autênticas. Dava-lhe o direito de fazer a primeira escolha da equipa, mas também decidia sobre quem jogava nos adversários, sempre os mais fracos do lote.

   A minha carreira futebolística devia ter ficado por ali, mas não era ainda o tempo de me dedicar aos estudos. Podia ter desistido naquele dia, mas isso só aconteceria meses mais tarde. Queria jogar, para ser parte do grupo e não ficar sozinho. Os que nunca viveram em solidão às vezes não entendem bem isso.

   Dois anos mais tarde, namorei com a irmã do Gonçalo e conheci-o melhor nessa altura, quando tinha uns 17 ou 18 anos. A Joana era magra e nervosa, no fundo parecida com o irmão, que era um rapaz espigado e alto, impertinente nas aulas e que se distinguia por não ter mais nada de especial, exceto a bola mesmo à séria, o brinquedo caro que todos lhe invejavam. Foi assim mesmo como estou a contar.

 

 

 Conto publicado no DN, no suplemento QI

publicado por Luís Naves às 17:42 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 06.09.12

Da Europa do meio

Num artigo na Revista Ler, o escritor e crítico José Riço Direitinho elabora uma lista de preferências literárias e inclui um livro de Gonçalo M. Tavares, com a ressalva de que o autor faz “uma espécie de literatura requentada da Mitteleuropa”. A frase, que tem feito o seu caminho nas redes sociais, pode ser uma daquelas típicas generalizações apressadas da crítica literária, mas serve de pretexto para uma breve digressão através de um tema que sempre me fascinou.


A Mitteleuropa é um conceito político que esteve na moda no início do século XX e, depois, outra vez no final do mesmo século. Segundo esta ideia, existe uma Europa no meio que corresponde à zona geográfica ou cultural liderada pelos alemães e que possui pontos em comum nas artes, nas tradições e na sociedade. Os teóricos nunca definiram bem o conceito, que não se aguenta em observação meramente política. Segundo alguns, esta Europa estende-se de Berlim aos Balcãs, de Trieste a Varsóvia, correspondendo mais ou menos às duas margens da antiga Cortina de Ferro, uma espécie de fronteira entre civilização e barbárie.
Quando foi pensada, a ideia de Europa do Meio abarcava comunidades muito diferentes, dos alemães aos eslavos do norte e do sul, dos judeus aos magiares (os ciganos não eram considerados suficientemente cultos). A amálgama de elementos diversos levou naturalmente à conclusão de que estes grupos tinham em comum uma espécie de civilização, algo que os ódios e as limpezas étnicas sempre desmentiram. O facto é que, antes e depois da Primeira Guerra Mundial, cidades como Viena, Budapeste, Berlim ou Praga vibravam com uma notável explosão intelectual, que se traduziu em literatura, ciência, filosofia, pintura ou música. Sem ter um centro único, este era à época o coração do mundo intelectual europeu. Tudo isto se estilhaçou em pouco mais de uma década: o anti-semitismo produziu os refugiados do nazismo (sobretudo de judeus alemães e austro-húngaros) que vieram a ter um papel relevante em Hollywood e Los Alamos.

 

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Quinta-feira, 30.08.12

Escolhas e História de arte

No início da década de 90, liguei o televisor de um quarto de hotel em Espanha. Não me lembro do ano exacto, mas os socialistas ainda estavam no poder e o PP preparava-se para ganhar eleições pela primeira vez. O desemprego andava nos 20%.
Nessa noite, vi um documentário sobre um pintor espanhol que na altura teria os seus 30 anos. Fiquei impressionado com a qualidade da obra. O pintor chamava-se Miquel Barceló e hoje é um dos grandes artistas mundiais.
A certo ponto, discutindo as influências, os entrevistadores perguntavam a Barceló as razões do seu interesse pelo neo-expressionismo alemão. E a resposta foi brilhante: "Cada pintor faz a sua própria História da Arte", disse Barceló. Interpreto a frase como o gosto desproporcionado por certos movimentos, em vez de outros, porventura mais importantes para os historiadores de arte.

 

Lembrei-me disto ao ver a lista do Expresso dos 50 livros de um cânone literário, que pode ser consultada no blogue de José Mário Silva, Bibliotecário de Babel, e deste texto de Vasco Graça Moura, no Diário de Notícias, baseado parcialmente no primeiro. Li apenas 30 livros da lista do Expresso, menos de metade da segunda lista.
Além de Camões, é interessante verificar a ausência de A Peregrinação nas escolhas do Expresso. Escrito alguns anos antes de D. Quixote, este livro sempre foi subestimado, por o considerarem crónica de viagens e biografia. Mas como é possível que um viajante não consiga acertar em nomes geográficos? E, para biografia, falta-lhe a verosimilhança. Biografia escondida, talvez, mas nenhuma vida tem uma estrutura tão limpinha: pecado, expiação, redenção. E se fosse uma espécie de romance baseado em experiências vividas? Alguém deixaria fora da sua lista este livro?

 

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publicado por Luís Naves às 17:17 | link do post | comentar
Quarta-feira, 01.08.12

O degelo de Abril

Fiquei desiludido por não encontrar Ermei Lismanki, como acontecia todos os três meses. Ele é um finlandês de cabelo branco e nariz proeminente, a rondar 60 anos: imagino como seria Cyrano de Bergerac idoso: em vez do falador insaciável, com gestos amplos para sublinhar argumentos e a espada fácil a trespassar quatro ou cinco patetas, em vez disso tudo, uma espécie de sábia lentidão, sendo que a única discrepância com o que imagino é a roupa moderna. Lismanki veste-se de forma negligente, mas é daquelas figuras que enchem qualquer sala, sem parecerem fazer esforço para encantar estranhos ou para criarem uma imagem que não corresponda a eles mesmos. Há naquele tipo de indivíduo uma autenticidade que hoje começa a faltar nas pessoas normais, preocupadas que estão em fazerem uma espécie de teatro da vida, onde vestem as roupas dos outros, representam a atitude dos outros e dizem as palavras dos outros.
   Antes de lhes falar do meu amigo, devo explicar que sou jornalista e que todos os três meses faço, para o meu jornal, a cobertura de cimeiras europeias, em Bruxelas. A sala de imprensa distribui-se por três pisos, naquilo que mais parece um bunker confuso, de corredores estreitos e labirínticas escadarias mal iluminadas. Centenas de jornalistas de muitos países empurram-se e acotovelam-se naquele lugar fechado e, durante dois dias, tentam perceber as decisões dos governantes, entre momentos de excitação colectiva, mas também de tédio, com esperas intermináveis que se consomem a olhar para o avanço do relógio (a boa distância, o jornal tem de fechar as páginas). Enfim, tudo isto estará longe do que se espera das organizações políticas influentes, mas asseguro-lhes que é inteiramente assim.

   Conheci Ermei Lismanki há um ano, numa destas cimeiras. Ele sentara-se na mesa ao lado da minha: instalou o portátil, sorriu para mim, fez um gesto polido com a cabeça, depois mergulhou numa escrita frenética, em língua que, pelo canto do olho, reconheci como sendo a finlandesa. No segundo dia, repetidos os gestos, ao vê-lo tão embrenhado, não resisti à mudez que se instalara entre nós (quando duas pessoas estão caladas, é sempre a mais fraca de ânimo quem fala primeiro). Sinal de fraqueza, talvez, não resisti à guerra fria do silêncio e travei o caudal da sua escrita. Estávamos ombro a ombro, apresentei-me, falando em inglês. Para minha surpresa, ele respondeu com enorme simpatia, interrompeu o que fazia, reclinou-se na cadeira e, depois de me olhar profundamente explicou-me a tarefa a que se entregara. (Tenho dificuldade em explicar o que é um olhar profundo, mas penso que cada um de nós o reconhece, ao sofrer a sua cirúrgica acção).
   - Enquanto espero, vou escrevendo por aqui umas histórias minhas -, disse Ermei Lismanski.
   - Ah! É escritor?-, perguntei, porventura reflectindo no tom de voz e na expressão desdenhosa o habitual desprezo que todos nós, jornalistas, sentimos pelos colegas de profissão que se armam em escritores.

publicado por Luís Naves às 17:20 | link do post | comentar
Sexta-feira, 27.07.12

A fertilidade dos solos

Sempre gostei da elegância simples da ideia. O factor limitante é por definição a causa a impedir um qualquer crescimento. Aplica-se sobretudo à biologia, a populações, ecossistemas, etc. O conceito é intuitivo: se não houver água suficiente para abastecer mais de um milhão de pessoas, uma cidade terá aqui o factor limitante e não passará de um milhão de pessoas.
Estudei a ideia aplicada à fertilidade dos solos, onde é crucial a relativa abundância de fósforo, potássio e azoto, sem os quais as plantas não podem constituir a respectiva massa. A questão é um pouco mais complicada, há minerais secundários, como enxofre, cálcio, ferro ou magnésio, sendo necessária matéria orgânica, muita água, dióxido de carbono e sobretudo luz. Mas sem aqueles nutrientes em quantidades generosas, havendo ausência de apenas um deles, a colheita está ameaçada. A fertilização dos solos concentra-se, assim, na reposição dos minerais e, acima de tudo, na preocupação em identificar e eliminar o factor limitante de determinado solo.
Julgo que a ideia se aplica a muitas situações da nossa vida. Podemos ter tudo, saúde, amor, e faltar-nos o dinheiro. Penso que também serve de metáfora para o que somos, alguns de nós trabalhadores e honestos, mas sem ambição; outros, cultos e capazes, mas cheios de vaidade. Enfim, os nossos maiores defeitos são sempre o factor limitante do que poderíamos ser. E isto parece ser verdade no mundo que nos rodeia: uma economia capaz de crescer sempre, embora com pequenos soluços, foi transformada numa sociedade em crise, pelos efeitos perversos da ganância selvagem.

 

Gosto de aplicar esta ideia aos livros, tentando perceber as razões da fertilidade criativa. William Faulkner dizia que há três elementos principais na escrita: o poder de observação, a nitidez da memória e a força da imaginação. Nos grandes livros, há equilíbrio ou relativa abundância dos três elementos. O autor pode ser mais forte na sua capacidade de observar, ou na fantasia que coloca no texto, mas não se sente a ausência de nenhum dos três factores. Nas obras falhadas, falta sempre um dos três elementos, por o autor se basear em excesso na memória e não efabular, ou por ser demasiado descritivo ou, pelo contrário, por não reflectir sobre aquilo que observou.
Claro que, como no caso da agricultura, as questões artísticas são mais complicadas. Não bastam estes nutrientes. A fertilidade depende de outras coisas, como tempo e cultura, um estilo próprio e original, a coragem de experimentar, mas também da capacidade de criar unidade e fluxo, partindo de uma ideia forte.

O assunto parece quase trivial, mas da fertilidade dos solos dependeram todas as civilizações. E a nossa não é excepção. Aliás, houve colapsos devido a processos de erosão. Quando os solos perdem a camada superficial, extremamente fina, onde se encontram os nutrientes, a sua capacidade produtiva perde-se também. A redução da fertilidade implica fome, doença e conflito.
A fertilidade artística, hoje em nítida crise, também nos diz muito sobre as patologias da sociedade. Como explicar o que parece ser a degradação geral da arte nas duas últimas décadas? Julgo que o maior factor limitante está hoje na degradação da memória, que se tornou cada vez mais curta. Mas não é a única causa, pois a dispersão em que vivemos não nos deixa pensar. Esta crise tem sobretudo a ver com a voracidade do tempo, a urgência que sentimos em gastá-lo o mais depressa possível, como se o amanhã estivesse mais perto. A contracção temporal obriga-nos a pensar mais depressa e, de certa forma, degrada os nossos poderes de observação e infantiliza o que imaginamos. Sobretudo, faz-nos esquecer. 

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publicado por Luís Naves às 13:54 | link do post | comentar
Segunda-feira, 23.07.12

Bica curta

Pediu uma bica curta e o empregado colocou sobre a mesa uma espécie de sopa negra, a chávena cheia até ao topo, o líquido excessivamente quente e sem a película de espuma queimada que era metade da graça numa bica curta. Ainda por cima, entregue com maus modos. O empregado deitou-lhe um olhar manhoso e na sua expressão ligeiramente torcida percebeu um vislumbre de ódio.
Em todo o café, as pessoas de carácter eram raras. Aliás, não viu nenhuma. Observou o triunfo dos gananciosos e dos videirinhos que se espalhavam em grupos pelas mesas, uns mais alegres, outros pensativos, uns a pedir galões, outros torradas a escorrer de manteiga. Pensou que o caminho estava facilitado para tolos e cínicos. Que os profetas da desgraça e os vendedores de sonhos, por muito que se enganassem, tinham sempre mais audiência do que os lúcidos. E não havia espaço para homens sem rótulo.
Reparou na ausência de discussões, notou que todos concordavam uns com os outros, fazendo salamaleques, num sorridente unanimismo. Naquele café, o carácter era tratado com desprezo e a independência de espírito criticada. Ele era o único que não pertencia a grupinhos, portanto, uma anomalia que o empregado detectara. Daí a pequena crueldade da bica cheia e a embirração do gesto, sobretudo a omissão com que fora tratado, como se fosse transparente. Por isso, ficou ali mais um minuto, a observar as falsas elites e a subserviência que mostravam.
Até se cansar. Então, tirou uma moeda do bolso, que deixou sobre a mesa, ao lado da bica intocada. Saiu, devagar, tentado ser altivo, mas esmagado pelo ardor de uma angústia que não sabia de onde vinha. O empregado nem sorriu ao pegar na moeda deixada, apesar dela incluir uma generosa gorjeta. As pessoas no café aumentaram o ruído das conversas, como se estalasse o alívio de o verem sair. Houve até algumas gargalhadas.
E, sem olhar para trás, sem saber que estava louco, o louco foi descendo a avenida.

publicado por Luís Naves às 11:18 | link do post | comentar

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